terça-feira, 19 de maio de 2015

“Mais do que eu possa me Reconhecer” de Allan Ribeiro é destaque do Projeto “Cinema em Transe” nesta terça no Sesc Palladium | Rotina em Belo Horizonte

No incessante esforço de levar os novos filmes realizados no Brasil para um maior e mais diversificado número de pessoas, a exibição do documentário “Mais do que eu possa me Reconhecer” (2015), do diretor carioca Allan Ribeiro, dará sequência à programação do Projeto “Cinema em Transe”. O longa produzido pela Acalante Filmes pode ser conferido hoje, às 20:00, na Sala Professor José Tavares de Barros do Sesc Palladium, no centro de Belo Horizonte.

Repleta de recentes e grandiosas produções, a cinematografia brasileira alcança um patamar de aceitação de público e crítica cada vez mais respeitável. Na cena documental o país já era onipresente, sendo um dos principais representantes do gênero no mundo e tendo nos nomes de Eduardo Coutinho, João Moreira Salles e Vladimir Carvalho os seus maiores expoentes. Nome estimado no cenário vanguardista do cinema autoral, Allan Ribeiro mantém a tradição documentarista do país ao lançar em seu novo trabalho um olhar raro e invulgar sobre o professor e artista plástico Darel Valença Lins.

Trancafiado em oitocentos metros quadrados de solidão, o gravurista pernambucano descobre na videoarte uma imanente companhia para manter viva a sua intrínseca e espelhada relação com o mundo, que já lhe é cara. Entrevistado pelo próprio Allan Ribeiro em uma prosa franca e afetuosa, Darel esbanja erudição ao discursar sobre a sua maneira de fazer arte e sobre o incômodo de se “fazer cinema” ao traduzir em palavras a simplicidade caseira de suas filmagens. O artista ainda questiona os comedidos métodos de trabalho e o olhar econômico de Allan para realização do filme. Por fim, a troca de experiências entre os dois personagens nos leva a presenciar um registro arrebatador e cativante desse encontro.

Recheadas de originalidade e com uma qualidade cada vez mais plural, as nossas produções estão ganhando pujança, refletindo, inclusive, no amadurecimento nítido e categórico de nossos documentários. Resultado disto, foi observar “Mais do que eu possa me Reconhecer” sendo escolhido pelo júri da crítica como o grande vencedor da Mostra Aurora (seção competitiva de longas-metragens), que integrou 18ª. Edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, plataforma importante para o lançamento de novos filmes no circuito nacional e que ocorreu no início deste ano.

"Mais do que eu possa me Reconhecer" (2015) de Allan Ribeiro - Acalante Filmes [br]

Dirigindo o seu segundo longa, Allan Ribeiro estará presente na Sala Professor José Tavares de Barros para participar de um debate sobre “Mais do que eu possa me Reconhecer” logo após a sua projeção. O diretor também é responsável pelo belíssimo e poético “Esse Amor que nos Consome” (2012), longa dirigido em conjunto com o amigo Douglas Soares e que fez parte da programação do Projeto “Cinema em Transe” no ano passado com uma exibição especial em abril de 2014.

Buscando ainda a disseminação de obras atuais e extremamente necessárias, destacamos os importantes trabalhos de Allan Ribeiro em curtas-metragens que se enquadram ou flertam com o gênero documental, como é o caso do seco e reflexivo “A Dama do Peixoto” (2010) e do alegórico e performático “O Clube” (2014). Além desses, podemos indicar também o seu ótimo primeiro trabalho como diretor no curta de ficção “Depois das Nove” (2008).

Criado em janeiro de 2013 com o intuito de promover o Cinema Nacional, o Projeto “Cinema em Transe” se transformou em um importante veículo para a disseminação de produções lançadas recentemente e que obtiveram destaque significativo em festivais de cinema pelo Brasil e pelo mundo. Ao longo desses últimos dois anos, as ações do projeto contribuíram muito para a divulgação e difusão do cinema produzido no país, explorando vários temas e possibilitando um contato maior do público com importantes obras da nossa cinematografia, por vezes raras e de difícil acesso.

Ressalvando o enorme valor cultural do projeto, vale lembrar que as exibições no Sesc Palladium são quinzenais e em sessão única. Dessa forma, se a divulgação desses filmes não for feita permanentemente, muitos deles continuarão enfrentando grandes dificuldades para se lançarem no circuito comercial. Alguns desses excelentes filmes, por exemplo, são inéditos em Belo Horizonte e, lamentavelmente, terão pouco ou nenhum destaque nas salas de cinema da cidade. Confira, então, as produções já exibidas pelo projeto em 2015 com o link para os respectivos artigos e ajudem a divulgá-los:





Viva o Cineclubismo e viva o Cinema Nacional!


Observação: a entrada para a sessão de “Mais do que eu possa me Reconhecer” esta noite é gratuita, mas é necessário retirar os ingressos na bilheteria do Sesc Palladium duas horas antes da sessão. O espaço está sujeito a lotação.

A Sala Professor José Tavares de Barros está localizada no Sesc Palladium, na Avenida Augusto de Lima 420, centro de Belo Horizonte.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Cine Humberto Mauro exibe a partir desta sexta a Mostra “Fuller/Peckinpah: Homens de Violência” | Rotina em Belo Horizonte

Com descomedimento rústico e bestial transbordando na grande tela, começa hoje no Cine Humberto Mauro, em Belo Horizonte, a Mostra “Fuller/Peckinpah: Homens de Violência”. Ao todo serão exibidos, até o dia 6 de junho, 21 filmes, sendo 12 do “bay stater” Samuel Fuller e outros 9 do californiano Sam Peckinpah.

Os diretores estadunidenses são contemporâneos e realizaram, ao longo de décadas (sobretudo entre os anos 50 e 70), dezenas de filmes em que a temática da violência era costumeiramente trabalhada, sendo que muitos deles são considerados por críticos como verdadeiras pérolas, clássicos absolutos do cinema mundial.

Características básicas já percebidas em antigos cineastas que inspiraram Fuller e Peckinpah (como William A. Wellman e Raoul Walsh), a agressividade e a sanguinolência passaram a ser não somente o fio condutor das narrativas, mas também começaram a se configurar como recurso estético nas mãos dos dois. Empregadas estilisticamente pelos diretores em seus inúmeros longas, tais definições podem ser sempre notadas na constante alternância dos diversos gêneros e subgêneros cinematográficos trabalhados por eles.

Essa pequena revolução promovida e administrada por Samuel Fuller e Sam Peckinpah ainda acabou influenciando uma geração posterior de outros grandes cineastas, como Martin Scorsese e Quentin Tarantino.

Os diretores Samuel Fuller e Sam Peckinpah - Divulgação

A programação completa da Mostra está disponível no site da Fundação Clóvis Salgado (fcs.mg.gov.br) ou pode ser acessada diretamente pelo link “Fuller/Peckinpah: Homens de Violência”

Lembrando que a entrada é gratuita, mas é necessário retirar os ingressos na bilheteria do cinema meia hora antes de cada sessão.

O Cine Humberto Mauro está localizado no Palácio das Artes, na Avenida Afonso Pena 1537, centro de Belo Horizonte.

Com base no calendário divulgado pela gerência da casa, o Rotina Cinemeira faz agora uma breve explanação das características cinematográficas de Fuller e Peckinpah, destacando, dentro dos longas selecionados no programa da Mostra, um filme imperdível de cada um dos diretores, além de indicar outras obras singulares de ambos, que podem ser conferidas ainda na segunda quinzena deste mês ou em experiências cinematográficas futuras, visto que não se tratam de retrospectivas integrais. Confira:

SAMUEL FULLER (1912 - 1997)

Filho de imigrantes judeus e nascido em Woscester, Massachusetts, Samuel Fuller se mudou muito jovem para Nova York. Aos 17 anos ele já trabalhava para o New York Journal como cartunista ou repórter policial investigativo em rondas pelas docas da cidade. O aprendizado e as experiências adquiridas na profissão o transformaram em um cidadão crítico, extremamente politizado e que se relacionava intimamente com os conflitos e os submundos da metrópole.

Soldado durante a Segunda Guerra Mundial, o até então jornalista lutou pela libertação de refugiados em campos de concentração nazista. Retornando aos Estados Unidos, Fuller se torna cineasta e despeja em suas obras toda a atmosfera visceral dos horrores vividos tanto em Nova York quanto nos fronts de batalha na Europa.

“Anjo do Mal” (1953) talvez seja a sua obra-prima, pois é um dos principais filmes da década que representam o medo pragmático da ameaça soviética e da paranoia anticomunista do pós-guerra, reflexos psicológicos e culturais de uma abalada sociedade estadunidense.

Anjo do Mal (Pickup on South Street, Estados Unidos, 1953)

O batedor de carteiras Skip McCoy (Richard Widmark) rouba a bolsa de uma mulher no metrô sem saber que dentro dela está um microfilme com Segredos de Estado. Involuntariamente ele descobre, por meio dessa interceptação, uma mensagem destinada a agentes inimigos e acaba se tornando um alvo de perseguição tanto dos espiões comunistas quanto da sua vítima potencial.

Flerte e sedução em meio a contravenções. Com um roteiro bem amarrado e escrito pelo próprio Samuel Fuller, “Anjo do Mal” nos prende do início ao fim da projeção, se enquadrando como uma das grandes obras do gênero noir e ainda empregando, em seu arco dramático, o colapso de um mundo que vivia os efeitos da Guerra Fria.

Veja agora outros destaques do diretor que integram a Programação da Mostra:

- Baionetas Caladas (Fixed Bayonets!, Estados Unidos, 1951)

- A Lei dos Marginais (Underworld U.S.A., Estados Unidos, 1961)

- Agonia e Glória (The Big Red One, Estados Unidos, 1980)

E ainda filmes de Samuel Fuller que não serão exibidos, mas merecem ser conferidos:

- Capacete de Aço (The Steel Helmet, Estados Unidos, 1951)

- Paixões que Alucinam (Shock Corridor, Estados Unidos, 1963)

- O Beijo Amargo (The Naked Kiss, Estados Unidos, 1964)

"Pickup on South Street" (1953) de Samuel Fuller - Twentieth Century Fox Film Corporation [us]

SAM PECKINPAH (1925 - 1984)

Natural de uma rural e pacata cidade do interior da Califórnia, Sam Peckinpah teve uma infância rotineira e solitária. Na sua juventude, entretanto, o futuro cineasta serviu à Marinha dos Estados Unidos como fuzileiro naval. Historicamente arraigada à vida dos oficiais do país, a violência cruzou, invariavelmente, o caminho do jovem que colocou o assunto em evidência ao ingressar para o cenário e para a indústria cinematográfica.

A temática sangrenta dos filmes de Peckinpah foi desenvolvida em um cinema extremamente realista e original. Filmes de guerra, dramas sociais contemporâneos, suspenses dosados com humor negro e faroestes sempre tinham todas essas peculiares e brutais características, entretanto, a violência não era o foco principal das narrativas, mas sim a forma como o cineasta a manipula em função das características de suas personagens.

Lembrança recorrente entre os cinéfilos, a excepcional obra “Meu Ódio Será sua Herança” é considerada por muitos especialistas como um dos melhores faroestes (e filmes) de todos os tempos. Pelo filme, Peckinpah foi indicado ao prêmio de melhor direção pelo Sindicato de Diretores Americanos em 1970 e ainda recebeu uma nomeação ao Oscar de melhor roteiro original junto com Walon Green e Roy N. Sickner no mesmo ano.

Meu Ódio Será sua Herança (The Wild Bunch, Estados Unidos, 1969)

Um grupo de bandidos veteranos e “foras da lei” começa a cogitar uma possível aposentadoria em conjunto, pois percebem que a continuidade na vida de crimes já não vale muito a pena. Além de estarem envelhecidos, os tempos mudaram: as garantias de lucro em algum grande assalto estão cada vez menores, e o risco de vida só aumenta à medida em que o mundo de oportunidades que o tradicional e árido Velho Oeste oferece vai desaparecendo ao redor de todos.

Intimidadores, destemidos e sempre com as cabeças postas a prêmio, os ainda perigosos integrantes dessa quadrilha recebem uma inesperada e tentadora proposta que acabará adiando os seus planos. Um valioso carregamento de armas de um trem deve ser interceptado para um poderoso bandoleiro mexicano, e a recompensa oferecida para roubar essa remessa é de dez mil dólares. A ganância falou mais alto e agora nada poderá detê-los, a não ser a própria morte.

Grandes astros de Hollywood como William Holden, Ernest Borgnine, Edmond O’Brien, Warren Oates e Ben Johnson integram o vigoroso elenco da originalíssima realização de Sam Peckinpah que não pode deixar de ser conferida nessa Mostra imperdível!

Veja agora outros destaques do diretor que integram a Programação:

- A Morte não Manda Recado (The Ballad of Cable Hogue, Estados Unidos, 1970)

- Os Implacáveis (The Getaway, Estados Unidos, 1972)

- A Cruz de Ferro (Cross of Iron, Reino Unido | Alemanha Ocidental, 1977)

E ainda filmes de Sam Peckinpah que não serão exibidos, mas merecem ser conferidos:

- Pistoleiros do Entardecer (Ride the High Country, Estados Unidos, 1962)

- Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs, Estados Unidos | Reino Unido, 1971)

- Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (Bring me the Head of Alfredo Garcia, Estados Unidos | México, 1974)

"The Wild Bunch" (1969) de Sam Peckinpah - Warner Brothers/Seven Arts [us]

BOAS SESSÕES E BOM DIVERTIMENTO!

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Três Assim #4 | O centenário de Orson Welles

É notório e quase proverbial dizer que uma carreira cinematográfica fundamentada por uma genialidade controversa é transparecida pela forte personalidade de um dos artistas mais célebres do século XX. Se estivesse vivo, o excêntrico Orson Welles teria completado os seus 100 anos nesta última quarta-feira.

Ator, roteirista e produtor cultural, Orson Welles começou no rádio e no teatro já somando um número incrível de experiências bem-sucedidas que o qualificaram como um dos profissionais mais inovadores e requintados do ramo. Canonizá-lo ou santificá-lo somente pelo vislumbro esmagador de sua estreia como cineasta em “Cidadão Kane” (1941); ou apenas pelo plano-sequência mais famoso da história do cinema que abre o estupendo “A Marca da Maldade” (1958); é um erro que dez entre dez pessoas comumente costumam cometer. O diretor é muito, mas muito maior do que isto.

Atuando em quase todos os filmes que realizava, Welles era preciso na conjugação de sua magistral direção com suas melancólicas interpretações (geralmente nos papéis de protagonista). Apesar das intermináveis pressões sofridas por estúdios pelos quais trabalhou ao longo de sua conturbada carreira como realizador, ele ainda conseguia assumir relativo controle de seus projetos, sempre colocando em evidência o quão funesta e calamitosa é a condição do ser humano em sua concernida intolerância perante o mundo.

Nos filmes de Orson Welles, essas malfadadas tendências malignas que nos acompanham desde os primórdios da humanidade podem ser observadas no singular “Soberba” (1942), no lúgubre “O Estranho” (1946), no kafkiano “O Processo” (1962) e no reflexivo “Verdades e Mentiras” (1973), por exemplo. Essas invariáveis ainda são empregadas de maneira sutil em “Macbeth - Reinado de Sangue” e “Othello” (1952), adaptações cinematográficas do cineasta para obras de William Shakespeare; e em “Grilhões do Passado” (1955) que ressoa a máxima da inocência perdida que já havíamos observado em “Cidadão Kane”.

Entretanto, as características multifacetadas deste astro fizeram com que o seu trabalho como ator fosse valorizado e controversamente desejado por muitos diretores e produtores de cinema ao longo de anos. E para comemorar a data, o Rotina Cinemeira fará diferente ao indicar na coluna “Três Assim” dessa semana três filmes onde Welles, sob a batuta de outros grandes diretores, fez a diferença emprestando todo o seu talento e aspereza para compor personagens sombrios inesquecíveis de algumas das mais notáveis produções do cinema mundial.

Jane Eyre (Jane Eyre, Estados Unidos, 1943)

Direção: Robert Stevenson

Órfã, desprezada pela família e após viver uma infância duramente triste, Jane Eyre (Joan Fontaine) deixa o colégio onde estava internada há alguns anos para trabalhar em uma misteriosa mansão como preceptora da pequena Adele (Margaret O’Brien), filha de Edward Rochester (Orson Welles). Jane e Edward acabam se apaixonando, mas ela descobre um terrível segredo que Rochester guardava por muito tempo, justamente no dia em que iriam se casar. Como consequência, tais revelações implicarão grandes dificuldades para a continuidade do romance do casal.

Baseado no romance homônimo de Charlotte Brontë, o roteiro adaptado por John Houseman, Aldous Huxley e do próprio Robert Stevenson foi posteriormente vinculado como novela em 1946 no programa de rádio de Orson Welles, o “The Mercury Summer Theatre on the Air”. Welles repetiu o magnético papel de Rochester, enquanto a atriz Alice Frost interpretou a sofrida Jane Eyre.

Sem que se estraguem as surpresas que o filme reserva, cabe ressaltar que a direção de Stevenson é exuberante, embora uma passagem curiosa mereça ser destacada. Durante o longa, há uma engenhosa cena de incêndio, construída com contornos sombrios e atmosfera gótica. A concepção e direção dessa famosa sequência são frequentemente atribuídas ao criativo Welles, mesmo ele nunca tendo sido creditado como tal.

Orson Welles ao lado de Joan Fontaine em "Jane Eyre" (1943) de Robert Stevensson
Twentieth Century Fox Film Corporation [us]

O Terceiro Homem (The Third Man, Reino Unido, 1949)

Direção: Carol Reed

O novelista americano Holly Martins (Joseph Cotten) viaja para a sombria Viena do pós-guerra a convite do oportunista Harry Lime (Orson Welles), um velho amigo que havia lhe prometido um emprego. Chegando à cidade, Holly se depara com o funeral de Harry e é informado que o amigo morreu em circunstâncias misteriosas. Impressionado com os fatos e determinado a investigar o caso, o escritor descobre várias inconsistências nos relatos dos companheiros de Lime e acaba se envolvendo em uma arrojada e perigosa rede de intrigas.

No início da produção de “O Terceiro Homem”, era forte o desejo de Carol Reed para que James Stewart e Orson Welles integrassem o elenco de protagonistas. Entretanto, um embate com o produtor David O. Selznick, que tinha o direito de aprovação dos nomes (e, inicialmente, preferia a dupla Joseph Cotten e Noel Coward para os papéis principais), acabou atravancando o começo das filmagens.

Selznick garantiu o protagonismo para Cotten e ainda emplacou Alida Valli na pele da bela e sedutora Anna Schmidt, mas acabou tendo que engolir à seco e ceder as insistentes pressões do diretor britânico em relação a Harry Lime. O resultado final é que, em uma aparição fantasmagórica na metade da projeção do longa, Welles talvez interprete, aqui, o personagem mais brilhante de sua carreira frente as câmeras.

Entre os anos de 1951 e 1952 o ator ainda estrelou uma série de rádio onde voltou a dar vida ao astucioso Harry Lime. As tramas capituladas narravam os acontecimentos anteriores aos do filme dirigido por Reed.

Orson Welles em "The Third Man" (1949) de Carol Reed - Carol Reed's Production [gb] | London Film Productions [gb]

O Homem que não Vendeu sua Alma (A Man for all Seasons, Reino Unido, 1966)

Direção: Fred Zinnemann

Vencedor de seis Oscars (incluindo melhor filme e melhor direção) em 1967, “O Homem que não Vendeu sua Alma” conta a história de Thomas More (Paul Scofield), um chanceler inglês que, na primeira metade do século XVI, se envolveu em um complicado conluio envolvendo o corrupto Rei Henrique VIII (Robert Shaw). More é obrigado pelo Rei a aprovar o seu divórcio com a Rainha e realizar um novo casamento com a sua amante. Mesmo se sentindo pressionado, ele acaba não concedendo ao monarca tal aprovação.

Católico fervoroso, Thomas More renuncia ao seu nobre título, mas ainda se vê perseguido pelo soberano inglês, ficando extremamente dividido entre a sua convicção religiosa e as obrigações com a realeza. Apático em relação ao caso e mantendo um silêncio sepulcral, More provoca ainda mais a ira do seu rei, o que acarreta uma batalha de poderes repleta de intrigas e manobras políticas que irão comprometer o destino do Homem, da Igreja e do País.

Embora austera e intransigente, a posição de Thomas More é admirável. Mesmo apologética, a figura que enxergamos no filme foi historicamente determinante para os rumos da reforma religiosa no Reino Unido. Cinematograficamente, More rendeu a Paul Scofield o Oscar de melhor ator (mais uma das seis estatuetas do longa). Egresso do teatro, o ator britânico foi uma escolha particular do diretor Fred Zinnemann que foi na contramão dos produtores que queriam Alec Guinness para o papel principal.

Em meio a estes embustes que percorrem as fases de pré-produções hollywoodianas encontramos Orson Welles, outra escolha do diretor para um papel que, embora pequeno (o do Cardeal Thomas Wolsey), estava sendo preterido por ninguém menos que Laurence Olivier. A sua aparição é curta, mas a interpretação é incrivelmente soberba e, mesmo sendo a opção original de Zinnemann, o garboso diretor diz ter dirigido a si próprio em suas poucas cenas.

Se a história é verdadeira ou se é simplesmente mais um dos ataques de vaidade do diretor, isso ninguém nunca vai saber. O fato realmente importante é que, por mais que as produções em que participou tenham tido diretores ou produtores severamente comprometidos com os projetos, sempre notaremos um toque da genialidade ou uma fração da excentricidade desse monstro sagrado do cinema chamado Orson Welles!

Orson Welles como o Cardeal Thomas Wolsey em "A Man for all Seasons" (1966) de Fred Zinnemann - Highland Films [gb]

É ISSO... BOM FIM DE SEMANA E BOAS SESSÕES!

terça-feira, 5 de maio de 2015

“Castanha” de Davi Pretto é destaque do Projeto “Cinema em Transe” nesta terça no Sesc Palladium | Rotina em Belo Horizonte

Com destaque significativo em mostras e festivais de cinema do Brasil e do mundo, o longa “Castanha” (2014) do diretor porto-alegrense Davi Pretto será exibido hoje, às 20:00, na Sala Professor José Tavares de Barros do Sesc Palladium, dando sequência à programação do Projeto “Cinema em Transe”, que busca difundir e fortalecer as recentes produções do cinema nacional ao longo do ano. Flertando com o gênero documental, o filme relata as desventuras do atormentado João Carlos Castanha, um ator que se divide fazendo pequenas participações em peças de teatro infantil e trabalhando como transformista em baladas LGBT nas noites da capital gaúcha.

Através de uma sutil e bem executada narrativa, é possível acompanhar como a irreverente personalidade de um artista consegue esconder, através de seus embuços sociais, um ser humano amargurado e, aparentemente, aflito. Morando e tomando conta de sua mãe já idosa, Celina (interpretada pela própria Celina Castanha), João observa sua vida desvanecer. Com 52 anos e sem grandes realizações, ele enfrenta problemas familiares com um sobrinho dependente de drogas e ainda é atormentado e perseguido por fantasmas do passado, conflitos extenuantes que o fazem confundir cada vez mais a realidade que vive com a ficção que interpreta.

Reflexos de uma contemporaneidade que se aproxima do colapso, os controvertíveis dramas sociais que esbarram na barreira entre a ficção e a realidade sempre foram tratados com atenção por Davi Pretto. Em seu currículo podemos destacar importantes curtas-metragens que invocam de maneira exasperante os problemas do mundo moderno como, por exemplo, o engenhoso “Quarto de Espera” (2009) onde um jovem transita por uma cidade vazia, cinzenta e moribunda utilizando a sua máscara de gás. Ainda podemos destacar o ótimo “Metrô” (2010) e o documentário “De Passagem” (2012). “Castanha” é o primeiro longa de ficção do diretor embora, como já foi comentado, busque em elementos e dramas reais da vida de João Carlos Castanha a sustentação necessária para o desenvolvimento da trama.

Apesar do recente lançamento, “Castanha” já possui carreira cinematográfica respeitável tendo, inclusive, sua estreia mundial sido realizada na 64ª. edição do Festival Internacional de Berlim em 2014. O longa-metragem teve menções honrosas e competiu em alguns dos principais festivais internacionais de cinema como os de Buenos Aires, Edimburgo e Hong Kong. No Brasil, o filme foi exibido na competição do (cada vez mais importante) Festival de Paulínia e no Festival do Rio vencendo, neste último, o prêmio de melhor filme na Mostra Novos Rumos, onde cineastas que expressam novas linguagens e caminhos para o cinema são premiados por seus primeiros trabalhos.

Em relação à repercussão e a atenção mundial, ainda cabe destacar a poderosa atuação de João Carlos Castanha que, interpretando a si mesmo, consegue transparecer toda a sua melancolia ao expor suas intimidades em tela. O trabalho lhe rendeu o prêmio de melhor ator no Festival Internacional de Las Palmas de Gran Canaria, na Espanha. Ao final da projeção, o brilhante protagonista estará presente na Sala Professor José Tavares de Barros para participar de um debate sobre o filme.

"Castanha" (2014) de Davi Pretto - Tokyo Filmes [br]

Com seu relativo sucesso no país e destacado como uma das produções mais inventivas e relevantes do cinema do Rio Grande do Sul desde “Deu pra Ti Anos 70” (1981), “Castanha” já marcou presença em alguns eventos de Belo Horizonte no ano passado. Em outubro, o filme teve pré-estreia nacional na Mostra Internacional Cine BH, com exibição no Cine Humberto Mauro, onde o diretor Davi Pretto ainda participou de um debate sobre sua experiência em produção, circulação de conteúdo e distribuição, além de destacar as diretrizes e os caminhos de sucesso do longa frente a sua trajetória internacional. Em novembro (em uma sessão especial também no Cine Humberto Mauro) o longa abriu a Primeira Edição do Lumiar: Festival Interamericano de Cinema Universitário, iniciativa do Centro Universitário UNA que surgiu com a proposta de discutir o ensinar, o pensar e o fazer cinematográfico. Davi tem formação acadêmica em cinema pela PUC-RS e contribui fortemente para ampliação panorâmica do cinema na América Latina.

A nossa cinematografia está repleta de filmes magníficos e a qualidade cada vez mais singular de nossas produções é categoricamente nítida. Entretanto, a disseminação dessas obras ainda se faz absurdamente necessária. E precisamos de mais!

Criado em janeiro de 2013 com o intuito de promover o Cinema Nacional, o Projeto “Cinema em Transe” se transformou em um importante veículo para a disseminação de produções lançadas recentemente e que obtiveram destaque significativo em festivais de cinema pelo Brasil e pelo mundo. Ao longo desses últimos dois anos, as ações do projeto contribuíram muito para a divulgação e difusão do cinema produzido no país, explorando vários temas e possibilitando um contato maior do público com importantes obras da nossa cinematografia, por vezes raras e de difícil acesso.

Ressalvando o enorme valor cultural do projeto, vale lembrar que as exibições no Sesc Palladium são quinzenais e em sessão única. Dessa forma, se a divulgação desses filmes não for feita permanentemente, muitos deles continuarão enfrentando grandes dificuldades para se lançarem no circuito comercial. Alguns desses excelentes filmes, por exemplo, são inéditos em Belo Horizonte e, lamentavelmente, terão pouco ou nenhum destaque nas salas de cinema da cidade. Confira, então, as produções já exibidas pelo projeto em 2015 com o link para os respectivos artigos e ajudem a divulgá-los:




Viva o Cineclubismo e viva o Cinema Nacional!


Observação: a entrada para a sessão de “Castanha” esta noite é gratuita, mas é necessário retirar os ingressos na bilheteria do Sesc Palladium duas horas antes da sessão. O espaço está sujeito a lotação.

A Sala Professor José Tavares de Barros está localizada no Sesc Palladium, na Avenida Augusto de Lima 420, centro de Belo Horizonte.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Três Assim #3 | Road Movies Brasileiros

Nesta última quinta-feira, encerrou-se no Cine Humberto Mauro, em Belo Horizonte, a Mostra “Sem Destino - Filmes na Estrada” que ofereceu para o seu público uma seleção especial de clássicos fascinantes do “gênero” cinematográfico conhecido como “Road Movie”, ou Filmes de Estrada. O artigo com os destaques e as principais dicas elaboradas pelo RotinaCinemeira para esta Mostra pode ser conferido clicando AQUI.

Humanisticamente muito fortes, os “road movies” têm como principal característica o fato de terem as narrativas desenroladas a partir do deslocamento das personagens de um ponto ao outro de uma estrada. Além disso, esses filmes constantemente apresentam o crescimento psicológico e moral das mesmas, evidenciando um amadurecimento capaz de alterar as perspectivas de suas vidas cotidianas para sempre.

Os filmes de estrada tratam universalidades e singularidades em um único espaço, e sempre valorizam as paisagens e os eventos que acontecem durante o percurso. Em um país de proporções continentais e de cartões postais tão belos quanto o Brasil, é óbvio que não poderiam faltar filmes com tais características. Na lista de recentes produções podemos destacar obras com primor técnico e qualidades artísticas inegáveis, como é o caso de “Árido Movie” (2005) de Lírio Ferreira, “O Palhaço” (2011) de Selton Mello e “Colegas” (2012) de Marcelo Galvão.

Nunca deixando de louvar o empenho e a dedicação de seus organizadores, é importante comentar que, frente ao conceito proposto pela gerência do Cine Humberto Mauro ao estabelecer a grade de programação desta finda mostra, a ausência das produções nacionais na lista dos filmes escolhidos foi um pouco sentida.

Entretanto, pode se dizer que “Diários de Motocicleta” (2004), aventura do jovem Che Guevara pelas estradas da América do Sul a bordo de uma motocicleta e na companhia de seu amigo Alberto Granado, era um dos filmes que integravam o programa do evento. Mas, apesar de ter sido dirigido pelo brasileiro Walter Salles, o longa é uma coprodução entre oito países (Argentina, Estados Unidos, Chile, Peru, Reino Unido, Alemanha e França, além do Brasil) e sequer foi (e nem deveria ter sido) rodado em locações nacionais.

Habituado com o gênero, o diretor carioca já filmou “Terra Estrangeira” (1996) e “Central do Brasil” (1998), que também tinham a estrada como o cenário principal para o desenvolvimento das tramas. Recentemente, Walter Salles ainda dirigiu “Na Estrada” (2012), baseado na obra de Jack Kerouac e que também é produção fruto da colaboração entre vários países (França, Estados Unidos, Reino Unido, Brasil, Canadá e Argentina).

Na falta dos longa-metragens nacionais e aproveitando o ensejo da discussão de uma temática que vinha sendo apreciado pelo público até o final do mês passado, o Rotina Cinemeira selecionou e agora indica três “road movies” brasileiros, obrigatórios e de apreciação indispensável para qualquer cinéfilo, confira:

Bye Bye Brasil (Bye Bye Brasil, França | Brasil | Argentina, 1980)

Direção: Carlos Diegues

Lorde Cigano (José Wilker), Salomé (Betty Faria) e Andorinha (Príncipe Nabor) são três artistas mambembes que percorrem o país com os espetáculos promovidos pela Caravana Rolidei, levando entretenimento e diversão para pequenas cidades do nordeste brasileiro. Em uma de suas paradas, a trupe encontra Ciço (Fábio Júnior), um humilde acordeonista que se apaixona por Salomé e implora para seguir viagem com o grupo.

Para Lorde Cigano, o maior inimigo do artista popular é a televisão. À medida em que vê o Brasil se modernizando com os malditos aparelhos e antenas de TV alcançando, inclusive, as localidades mais isoladas, ele decide mudar de ares penetrando com a sua Caravana nos confins da Floresta Amazônica, sempre em busca de um novo público e a fim de apresentar o seu agonizante show. Ciço acompanha o grupo, levando consigo a esposa grávida, Dasdô (Zaira Zambelli). Juntos, os artistas partem para uma jornada de autoconhecimento e choque de realidade, cruzando o norte centro oeste do país até chegarem a Brasília.

José Wilker e Fábio Júnior em "Bye Bye Brasil" (1980) de Carlos Diegues
Luiz Carlos Barreto Produções Cinematográficas [br]

Cinema, Aspirinas e Urubus (Cinema, Aspirinas e Urubus, Brasil, 2005)

Direção: Marcelo Gomes

Em 1942, no meio do sertão nordestino, dois homens vindos de mundos completamente diferentes se encontram. Um deles é Johann (Peter Ketnath), um alemão que fugiu dos conflitos da Segunda Guerra Mundial e trabalha a bordo de um caminhão vendendo aspirinas pelo interior do Brasil. O outro é Ranulpho (João Miguel), um brasileiro humilde que sempre viveu as amarguras sertanejas, mas que tem o desejo de escapar da seca que sempre assolou a região e, sobretudo, a sua vida.

Após ganhar uma carona no velho caminhão, Ranulpho passa a trabalhar como ajudante de Johann. Viajando de povoado em povoado, a dupla exibe filmes promocionais sobre o “milagroso” remédio para pessoas que jamais tiveram a oportunidade de frequentar um cinema. Ao longo da estrada, os dois aprendem a respeitar as suas diferenças e, aos poucos, uma forte e incomum amizade acaba sendo construída por eles.

João Miguel e Peter Ketnath em "Cinema, Aspirinas e Urubus" (2005) de Marcelo Gomes
Dezenove Filmes [br] | Rec Produtores Associados Ltda. [br]

Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo (Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo, Brasil, 2009)

Direção: Karim Aïnouz e Marcelo Gomes

José Renato (Irandhir Santos) é enviado para uma região isolada do Nordeste Brasileiro. Ele é casado, tem 35 anos, é geólogo e parte para esta viagem, que terá a duração de 30 dias. Atravessando todo o sertão, José Renato tem a missão de avaliar as condições do solo de uma grande região onde, possivelmente, o percurso de um canal será aberto, desviando e transpondo o curso das águas do único rio caudaloso existente. Confrontado por sentimentos ambíguos e sentindo saudades do lar e da esposa, o pesquisador começa a sofrer com as sensações de abandono e solidão.

Alegoricamente belo, o poema visual que se traduz no filme de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes tem leves contornos documentais, justamente por mostrar, de maneira bem simples, quão ordinária e sem graça é a nossa vida.

"Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo" (2009) de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes
Rec Produtores Associados Ltda. [br]

É ISSO... BOM FIM DE SEMANA E BOAS SESSÕES!


Cine Sesc Palladium exibe a partir desta sexta a Mostra “Narrativas do Fantástico” | Rotina em Belo Horizonte

Com uma programação que se estenderá ao longo de todo o mês de maio, inicia-se hoje, no Sesc Palladium em Belo Horizonte, a Mostra “Narrativas do Fantástico”. Ao todo serão exibidos na Sala Professor José Tavares de Barros, até o dia 31 de maio, doze filmes que fortalecem as relações entre o cinema e a literatura, dando um enfoque especial para insólitas histórias que permeiam o imaginário popular. Este que é responsável por criar e reinventar embustes intrigantes que funcionam como válvula de escape e rompimento de esquemas convencionais seguidos pela sociedade, bem como as percepções que a mesma tem sobre a realidade.

O significado das coisas e os reais motivos de estarmos presentes neste mundo sempre foram o ponto central para a formação reflexiva da mente humana. Carregados de subterfúgios, grandes nomes da literatura como Edgar Allan Poe, Franz Kafka e Nathaniel Hawthorne sempre souberam como expressar em suas obras os medos e as incertezas do homem, desde o momento em que ele se fez parte integrante e modificadora do planeta Terra. Essas aflições e angústias são tão genuínas que, entranhadamente, acompanham a nossa espécie da pré-história até a contemporaneidade.

Traduzida para o cinema, a natureza enigmática do ser humano pode ser explorada de forma ainda mais insondável. Por exemplo, vemos no drama fantástico “O Processo” (1962) (integrante da programação da Mostra), que o diretor Orson Welles soube se aproveitar muito bem das tecnologias dispostas pelo cinema para traduzir em imagens e sons o pesadelo paranoico de Josef K., um homem que aguarda um conspiratório (e talvez injusto) processo de assassinato que corre contra ele ser julgado. Welles flertou de forma genial com o surrealismo para traduzir todos os arquétipos de alienação e fobia social que Kafka já havia descrito em seu livro ainda no primeiro quarto do século XX.

Narrativas fantásticas sempre contribuíram para quase todos os estilos e gêneros cinematográficos, assim como suas várias vertentes (drama, terror, ficção científica e até mesmo faroestes são constantemente contemplados com inventivos roteiros). Entre elas, são destaques na programação divulgada pelo Sesc filmes como “A Guerra dos Mundos” (1953) de Byron Haskin, clássico da ficção e referência básica dos filmes de catástrofe pós-apocalípticos; e “Nos Domínios do Terror” (1963) de Sidney Salkow, estrelado pelo “mestre do macabro” Vincent Price, estrela máxima dos filmes de terror e figura icônica do cinema de fantasia dos Estados Unidos.

A programação ainda conta com duas preciosidades do Cinema Nacional: “Enigma para Demônios” (1975) de Carlos Hugo Christensen, baseado no conto “Flor, Telefone, Moça” de Carlos Drummond de Andrade; e “A Hora Mágica” (1998) de Guilherme de Almeida Prado inspirado pelo conto “Troca de Luzes” de Júlio Cortázar. Cada um dos longas será exibido duas vezes ao longo deste mês, assim como os demais filmes que fazem parte do programa da Mostra.

Algumas das sessões ainda serão comentadas por professores, estudiosos e profissionais de cinema. Além disso, o evento contará com uma mesa redonda sobre essa fantasiosa temática e uma oficina de literatura ministrada pelo curador da mostra, o jornalista e pesquisador Nuno Manna. Para ficar por dentro do cronograma, basta conferir as informações e a programação completa dos eventos que estão disponíveis no site do Sesc Palladium (sescmg.com.br/sescpalladium), ou acessá-las diretamente pelo link "Narrativas do Fantástico".

Lembrando que a entrada para as sessões é gratuita, mas é necessário retirar os ingressos na bilheteria do Sesc duas horas antes de cada exibição. O espaço está sujeito a lotação. Observação: a casa não funciona às segundas-feiras.

A Sala Professor José Tavares de Barros está localizada no Sesc Palladium, na Avenida Augusto de Lima 420, centro de Belo Horizonte.

Com base nessa diversificada programação, o Rotina Cinemeira fez uma pequena seleção e agora indica seis dos doze filmes que vão mexer com o imaginário de seus espectadores durante todo este mês. Confira agora os títulos imperdíveis do que estarão em cartaz:

Nosferatu, uma Sinfonia do Horror (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, Alemanha, 1922)

Direção: F. W. Murnau

Hutter (Gustav von Wangenheim) é um agente imobiliário que viaja até os Montes Cárpatos para vender um castelo cujo proprietário é o excêntrico e solitário Conde Graf Orlok (Max Schreck). O nobre tem preferência por hábitos noturnos e possui costumes cerebrinos, como dormir durante todo o dia dentro de um caixão. Na verdade, Orlok é um milenar e sanguinário vampiro que, buscando aumentar seu poder, se muda para Bremen espalhando terror por toda a região. Ellen (Greta Schröder), esposa de Hutter, é a única que pode manter a situação sob controle, afinal Orlok se sente atraído por ela.

Clássico do Expressionismo Alemão, a obra-prima de terror do diretor F. W. Murnau é, até hoje, uma das mais notáveis adaptações do romance gótico “Drácula”, do contista irlandês Bram Stoker.

"Nosferatu, eine Symphonie des Grauens" (1922) de F. W. Murnau
Jofa-Atelier Berlin-Johannisthal [de] | Prana-Film GmbH [de]

O Médico e o Monstro (Dr. Jekyll and Mr. Hyde, Estados Unidos, 1931) 

Direção: Rouben Mamoulian

Henry Jekyll (Fredric March) é um renomado médico que estuda a possibilidade de separação total de caráter dos seres humanos, isolando a bondade e a maldade. O doutor começa a sofrer com as graves consequências de seus experimentos, deixando que o lado mais obscuro de sua personalidade assuma o controle das ações. Em uma transformação alegoricamente perversa, Jekyll deixa que o selvagem e animalesco Senhor Hyde tome conta de seu corpo.

Clássica história baseada em um romance de Robert Louis Stevenson, “O Médico e o Monstro” possui inúmeras adaptações para o cinema e para o teatro, mas é a versão do cineasta Rouben Mamoulian que sempre obteve maior destaque se mostrando mais significativa que as demais, justamente por ter sido realizada no período em que os filmes de terror atingiram o seu auge em termos de produção nos Estados Unidos. Basta lembrar que nesse mesmo anos foram lançados “Drácula” de Tod Browning e “Frankenstein” de James Whale.

"Dr. Jekyll and Mr. Hyde" (1931) de Rouben Mamoulian - Paramount Pictures [us]

A Maldição do Demônio (La Maschera del Demonio, Itália, 1960)

Direção: Mario Bava

Motivada por sua condenação à fogueira séculos atrás, Princesa Asa Vajda, uma bruxa vingativa (Barbara Steele), e o seu demoníaco servo retornam do mundo dos mortos para colocar em prática uma aterradora e sangrenta campanha de desforra contra os seus descendentes. Para alcançar os seus objetivos é necessário que a Princesa possua o corpo de Katia Vajda (também interpretada por Steele), mas ela enfrenta a resistência do irmão da moça e do médico da cidade que farão de tudo para que o legado demoníaco da bruxa não volte a amaldiçoá-los.

Livremente inspirado no conto “Viy”, do ucraniano Nikolai Gogol, sobre uma entidade demoníaca que povoa o imaginário folclórico russo, “A Maldição do Demônio” é o filme mais conhecido de Mario Bava, mestre do terror italiano, que ainda possui obras muito valorosas como “Olhos Diabólicos” (1963) e “A Mansão da Morte” (1971).

"La Maschera del Demonio" (1960) de Mario Bava - Galatea Film [it] | Jolly Film [it]


Direção: Jack Clayton

Uma jovem governanta e duas crianças em uma isolada mansão cercada de mistérios, essa é a atmosfera perfeita criada para um dos filmes de suspense psicológico mais virtuosos já realizados. Senhorita Giddens (Deborah Kerr) está convencida de que algo sinistro está acontecendo no casarão em que trabalha. Contratada para cuidar dos pequenos órfãos Flora (Pamela Franklin) e Miles (Martin Stephens), ela suspeita que algum tipo de assombração do passado esteja agindo de forma direta sobre as crianças, fazendo com que elas tenham, por vezes, um comportamento estranhamente assustador.

Baseado no romance “A Volta do Parafuso” de Henry James, “Os Inocentes” já foi contemplado na coluna “Sempre um Clássico” do Rotina Cinemeira no mês de março deste ano. O perfil e a análise crítica do longa de Jack Clayton podem ser conferidos visitando o link a seguir: “Sempre um Clássico #4 | Os Inocentes (1961)”.

"The Innocents" (1961) de Jack Clayton - Achilles | Twentieth Century Fox Film Corporation [us]

O Manuscrito de Saragoça (Rekopis Znaleziony w Saragossie, Polônia, 1965)

Direção: Wojciech Has

Em meio a uma batalha das Guerras Napoleônicas, dois oficiais inimigos se encontram em um casebre espanhol e deparam com um velho manuscrito que relata as proezas de Alfonso van Worden (Zbigniew Cybulski), um militar belga e antigo capitão da Guarda Valona. Durante a Guerra Peninsular, Alfonso (que, curiosamente, é avô de um desses oficiais) procurava uma rota mais curta para atravessar a Sierra Morena. Nessa jornada, ele acabou cruzando toda a Espanha e conhecendo figuras curiosas que surgem em cena sempre dando origem a novas e fantásticas histórias que se multiplicam e se entrelaçam.

Fundamentado pela obra literária “O Manuscrito Encontrado em Saragoça” de Jan Potocki, a adaptação cinematográfica de Wojciech Has é dotada de uma complexa construção de eixos narrativos. Tendo sempre como ponto de partida o manuscrito encontrado, tanto o livro quanto o filme questionam os limites entre realidade e naturalidade flertando com o surrealismo e empregando boas doses de humor e erotismo na composição das situações.

"Rekopis Znaleziony w Saragossie" (1965) de Wojciech Has - Kamera Film Unit [pl]

Solaris (Solyaris, União Soviética, 1972)

Direção: Andrei Tarkovsky

Kris Kelvin (Donatas Banionis) é um famoso psicólogo que é enviado para uma estação espacial científica que orbita o distante planeta oceânico Solaris. Sua importante missão como cosmonauta é investigar uma série de fatos bizarros e misteriosos que andam ocorrendo com o resto da tripulação, que já beira a insanidade. Os cientistas acreditam que fenômenos sobrenaturais estão por trás de todos os fatos insensatos e que estes sofrem influência direta das forças emanadas por Solaris.

Adaptação do homônimo romance polonês de ficção científica, “Solaris” de Stanislaw Lem, o filme de Andrei Tarkovsky procura se distanciar das demais produções do gênero na época, dispensando distrações espetaculosas de grandiosas ações e passando a explorar, de maneira densa, um universo muito mais vasto e perigoso do que àquele que nos rodeia, o espaço interior.

"Solyaris" (1972) de Andrei Tarkovsky
Creative Unit of Writers & Cinema Workers [suhh] | Kinostudiya "Mosfilm" [suhh] | Unit Four [suhh]

Cine Humberto Mauro exibe a partir desta sexta a Mostra “Clássicos Franceses Restaurados” | Rotina em Belo Horizonte

Tem início hoje, no Cine Humberto Mauro em Belo Horizonte, a Mostra “Clássicos Franceses Restaurados”. Ao todo serão exibidos, até o dia 14 de maio, 15 filmes que farão um pequeno recorte da elegante cinematografia francesa, perpassando por várias décadas em que a sempre abastada produção de filmes no país foi responsável por alavancar inúmeros movimentos culturais que influenciaram outras diversas escolas do cinema mundial.

Através da parceria firmada entre a Fundação Clóvis Salgado, com a Embaixada da França e o Instituto Francês em Belo Horizonte, foi possível reunir obras de cineastas consagrados como Georges Franju, Jacques Demy, Jacques Tati, Julien Duvivier, Max Ophüls, dentre outros. O que torna o evento ainda mais charmoso para o público é que todos as projeções serão exibidas em belas cópias restauradas no formato DCP, com altíssima definição.

Esta é uma excelente e rara oportunidade para conferir, por exemplo, o curta-metragem “Viagem à Lua” (1902) de Geoges Méliès, que integra a programação da Mostra. Clássico absoluto do cinema mudo, o filme mostra com uma sensibilidade magnífica a emocionante aventura de cinco astrônomos que partem em uma expedição para Lua e lá encontram exóticos e hostis selenitas.

Inspirado pelas narrativas imagéticas de Júlio Verne e mais de meio século antes do início da corrida espacial, Méliès deixa todo o seu legado inventivo exprimido na famosa sequência em que uma nave espacial em forma de bala de canhão atinge o olho direito da Lua. Nas sessões em que o “Viagem à Lua” for exibido, será projetado na sequência o não menos venerado “Zero de Conduta” (1933) média-metragem de Jean Vigo.

"Le Voyage dans la Lune" (1902) de Georges Méliès - Star-Film [fr]

Ainda dentro da programação, a “História Permanente do Cinema” (mostra contínua do Cine Humberto Mauro que exibe, sempre às 17:00 de todas as quintas-feiras, sessões comentadas de clássicos absolutos da história do cinema) terá programação especial, pois irá dialogar com a presente Mostra apresentando mais dois grandes filmes do argucioso Cinema Francês. No dia 7 de maio será exibido “O Último Metrô” (1980) de François Truffaut, já na semana seguinte, no dia 14, o público poderá conferir “A Besta Humana” (1938) do diretor Jean Renoir.

A programação completa está disponível no site da Fundação Clóvis Salgado (fcs.mg.gov.br) ou pode ser acessada diretamente pelo link "Clássicos Franceses Restaurados"

A entrada é gratuita, mas é necessário retirar os ingressos na bilheteria do cinema meia hora antes de cada sessão. O Cine Humberto Mauro está localizado no Palácio das Artes, na Avenida Afonso Pena 1537, centro de Belo Horizonte.

Com base na programação divulgada pela gerência da casa, o Rotina Cinemeira selecionou e agora indica quatro filmes imperdíveis da Mostra “Clássicos Franceses Restaurados”, confira:

A Grande Ilusão (La Grande Illusion, França, 1937)

Direção: Jean Renoir

Durante a Primeira Guerra Mundial, o Capitão Boeldieu (Pierre Fresnay) e o Tenente Maréchal (Jean Gabin) são capturados por tropas alemãs logo após o avião em que estavam ser abatido pelas forças inimigas. Os dois oficiais franceses são enviados para um campo de prisioneiros de guerra e lá conhecem companheiros de diversas outras origens. Entre eles está o Tenente Rosenthal (Marcel Dalio), filho de uma família de ricos banqueiros judeus que, ironicamente, havia adquirido um castelo que pertencera à família de Boeldieu, que fazia parte da aristocracia francesa antes do conflito. Encarcerados, os três acabam engatando uma amizade.

Às vésperas de concluírem um túnel que lhes proporcionaria a liberdade e depois de algumas tentativas frustradas de fuga, os amigos são deslocados para uma Fortaleza. Comandado pelo Capitão Rauffenstein (Erich von Stroheim), o novo local de confinamento do grupo era aparentemente impenetrável e escapar de lá parecia, teoricamente, impossível. O oficial alemão se mostra simpático a Boeldieu, justamente por possuir origem nobre, enquanto isso, Maréchal e Rosenthal continuam com a ideia fixa de escapar e chegam à conclusão de que, para obterem êxito, era preciso que alguém os atraísse para um determinado local da Fortaleza.

"La Grande Illusion" (1937) de Jean Renoir - Réalisation d'Art Cinématographique (RAC) [fr] 

O Boulevard do Crime (Les Enfants du Paradis, França, 1945)

Direção: Marcel Carné

Em 1828, o Boulevar du Temple era destacado como o local onde pulsava a vida boêmia de Paris. Podíamos encontrar por lá os melhores teatros, cabarés e bares da capital francesa e no meio dessa multidão deparava-se com atores, dançarinos e malabaristas. É neste cenário que começou a frustrada história de amor entre a atriz Garance (Arletty) e o mímico Baptiste Debureau (Jean-Louis Barrault). Apaixonado, ele não conseguia se declarar, pois o espírito de liberdade da mulher o intimidava.

Nesse meio tempo, a filha do diretor do teatro, Nathalie (María Casares), nutria um amor secreto pelo mímico, e o jovem ator Frédérick Lemaître (Pierre Brasseur) engatou um relacionamento com Garance, que também amava Baptiste em segredo. Eleito em 1997 como o maior filme francês do século XX, esse tumultuado círculo amoroso é um dos maiores exemplares do gênero que ficou conhecido como realismo poético.

"Les Enfants du Paradis" (1945) de Marcel Carné - Société Nouvelle Pathé Cinéma [fr]

Pickpocket - O Batedor de Carteiras (Pickpocket, França, 1959)

Direção: Robert Bresson

Michel (Martin LaSalle) começa a roubar carteiras, mais pelo prazer e pela diversão do que por necessidade. Entretanto, o hábito acaba tornando-se uma compulsão e, ao ser preso em uma de suas primeiras tentativas de furto, ele passa a refletir sobre os delitos que cometeu. O rapaz acaba percebendo o tremendo choque que causou em sua mãe, família e amigos, provocando mágoas e decepções. Ainda assim, quando é solto, ele volta ao mundo crime ao conhecer um ladrão veterano.

Na sua incessante busca por novas vítimas, Michel acaba desenvolvendo técnicas de furto cada vez mais apuradas e acaba se envolvendo em transgressões cada vez mais arriscadas. A sua consciência volta a pesar novamente, dessa vez provocado por um drama familiar e pelo fato de ter se apaixonado por Jeanne (Marika Green) em sua segunda passagem pela prisão. Inspirado no romance “Crime e Castigo” de Fiódor Dostoiévski, o filme busca exprimir o pesadelo de um jovem que busca a redenção ao tentar vencer a sua fraqueza de ter embarcado em uma perigosa aventura para a qual não estava preparado.

"Pickpocket" (1959) de Robert Bresson - Compagnie Cinématographique de France [fr]

O Demônio das Onze Horas (Pierrot le Fou, França, 1965)

Direção: Jean-Luc Godard

Ferdinand Griffon (Jean-Paul Belmondo) é ‘Pierrot’, um professor de espanhol que está em um conturbado casamento com uma italiana. Entediado de sua maçante vida na alta sociedade francesa, ele decide escapar em uma viagem rumo ao sul do país, de Paris até o Mar Mediterrâneo, na companhia de Marianne Renoir (Anna Karina), uma garota perseguida por assassinos argelinos extremistas.

Um cadáver encontrado em um apartamento e a revelação de uma sinistra história sobre os terroristas é o mote para que eles iniciem a fuga. Nessa incomum peregrinação, o novo casal acaba levando uma vida pouco ortodoxa deixando um rastro de roubos por onde passam. Loucuras que poderão levar a um final trágico e surpreendente.

"Pierrot le Fou" (1965) de Jean-Luc Godard
Films Georges de Beauregard [fr] | Rome Paris Films [fr] | Société Nouvelle de Cinématographie (SNC) [fr]