terça-feira, 28 de abril de 2015

“Brasil S/A” de Marcelo Pedroso é destaque do Projeto “Cinema em Transe” nesta terça no Sesc Palladium | Rotina em Belo Horizonte

É inegável que o atual momento do Cinema Brasileiro esbanja originalidade, robustez e eficácia. Para enaltecer as nossas recentes produções, o Projeto “Cinema em Transe” dá sequência à sua programação exibindo hoje, às 20:00, na Sala Professor José Tavares de Barros do Sesc Palladium, o longa “Brasil S/A” (2014) de Marcelo Pedroso. Com humor ácido e silencioso que, por vezes, remete ao clássicos “Tempos Modernos” (1936) de Charles Chaplin e "Playtime - Tempo de Diversão" (1967) de Jacques Tati, o filme é fruto de uma autorreflexão sobre o Brasil dos dias de hoje, evidenciando a nossa subalternidade e as contradições de uma modernização descomedida.

A ordem e o progresso soam paradoxais para nós brasileiros quando, costumeiramente, nos enxergamos ou nos posicionamos na periferia do mundo. Ao privatizar a nossa nação, já no título do filme, o diretor pernambucano Marcelo Pedroso mostra que, nos últimos anos, o Brasil vem experimentando uma série de entorpecidas situações no seu campo de desenvolvimento, resultados de um desenfreado avanço que redefine as nossas estruturas sociais mais arcaicas. A evolução (ou involução?) sempre vai na contramão dos problemas que já pareciam ser historicamente determinados.

Em mais de 500 anos de história, o Brasil teve no cultivo da cana-de-açúcar uma de suas principais forças econômicas. Edilson (Edilson Silva) passou a maior parte de sua vida trabalhando como cortador de cana e, a partir do momento em que as máquinas surgem na sua vida, ele deixa o canavial rumo a uma missão interplanetária, explorando o espaço pela primeira vez. “Um pequeno passo para Edilson, um salto gigantesco para o Brasil”. Os ecos insólitos de imagens e de sons alumiam o contrassenso da vida moderna e revelam a eterna vocação que o nosso país tem de ser a predestinada nação do futuro.

Em 2014, “Brasil S/A” venceu cinco Troféus Candango na 47ª. edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro nas categorias de melhor direção e melhor roteiro, com Marcelo Pedroso; melhor montagem, com Daniel Bandeira; melhor som, com Pablo Lamar; e melhor trilha sonora, com Mateus Alves. Com destaque significativo em algumas mostras e festivais de cinema pelo país, o longa iniciou recentemente a sua carreira internacional ao participar, em fevereiro, da Mostra Forum do Festival de Cinema de Berlim, que abre espaço para obras experimentais ou de vanguarda.

"Brasil S/A" (2014) de Marcelo Pedroso - Símio Filmes [br]

Marcelo Pedroso é um dos principais nomes do novo cinema pernambucano e possui um importante currículo como documentarista, onde podemos destacar relevantes e inventivos filmes como o longa-metragem “Pacific” e o média-metragem “Balsa”, ambos de 2009, além do curta “Câmara Escura” (2012).  Sempre abordando temas com forte teor social e político, ele ainda lançou, em 2013, o aclamado e provocativo curta de ficção “Em Trânsito”. “Brasil S/A” é o primeiro longa ficcional do diretor, que estará presente na Sala Professor José Tavares de Barros ao final da projeção para participar de um debate sobre o filme.

Criado em janeiro de 2013 com o intuito de promover o Cinema Nacional, o Projeto “Cinema em Transe” se transformou em um importante veículo para a disseminação de produções lançadas recentemente e que obtiveram destaque significativo em festivais de cinema pelo Brasil e pelo mundo. Ao longo desses últimos dois anos, as ações do projeto contribuíram muito para a divulgação e difusão do cinema produzido no país, explorando vários temas e possibilitando um contato maior do público com importantes obras da nossa cinematografia, por vezes raras e de difícil acesso.

Ressalvando o enorme valor cultural do projeto, vale lembrar que as exibições no Sesc Palladium são quinzenais e em sessão única. Dessa forma, se a divulgação desses filmes não for feita permanentemente, muitos deles continuarão enfrentando grandes dificuldades para se lançarem no circuito comercial. Alguns desses excelentes filmes, por exemplo, são inéditos em Belo Horizonte e, lamentavelmente, terão pouco ou nenhum destaque nas salas de cinema da cidade. Confira, então, as produções já exibidas pelo projeto em 2015 com o link para os respectivos artigos e ajudem a divulgá-los:



Viva o Cineclubismo e viva o Cinema Nacional!


Observação: a entrada para a sessão de “Brasil S/A” esta noite é gratuita, mas é necessário retirar os ingressos na bilheteria do Sesc Palladium duas horas antes da sessão. O espaço está sujeito a lotação.

A Sala Professor José Tavares de Barros está localizada no Sesc Palladium, na Avenida Augusto de Lima 420, centro de Belo Horizonte.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Três Assim #2 | Os 75 anos de Al Pacino

Figura representativa de produções da época mais decorosa de Hollywood e vencedor do Oscar de Melhor Ator por “Perfume de Mulher” (1992), Al Pacino, uma das maiores lendas vivas do cinema mundial, completa 75 anos neste fim de semana.

De origem familiar ítalo-americana, o ator nova iorquino enraizado no Bronx também se aproxima de meio século dedicado ao cinema. Sua carreira duradoura conta com interpretações intensas e corajosas em um currículo invejável de 48 filmes.

Para comemorar a data, o Rotina Cinemeira embarca em uma pequena retrospectiva deste grande astro recomendando três grandes filmes. As produções indicadas perpassam por momentos distintos de sua carreira e possuem 20 anos de diferença, começando com um de seus maiores sucessos e encerrando com uma recente estreia que está em cartaz nos cinemas do Brasil.

Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon, Estados Unidos, 1975)

Direção: Sidney Lumet

Al Pacino estreou nos cinemas em “Uma Garota Avançada” (1969) de Fred Coe e, cinco anos mais tarde, já despontava como um dos atores mais virtuosos, promissores e desejados da indústria cinematográfica. Neste curto espaço de tempo ele deu vida à Michael Corleone no incomparável “O Poderoso Chefão” (1972) e sua posterior sequência, ambos de Francis Ford Coppolla. Em meio aos dois filmes, o ator participou das elogiadas produções “Espantalho” (1973) de Jerry Schatzberg e “Serpico” (1973) de Sidney Lumet.

A parceria com Lumet foi repetida dois anos mais tarde em “Um Dia de Cão”, que mostra as consequências de um assalto a banco mal planejado, misturando à narrativa comédia e drama de uma maneira singela e harmoniosa. O filme é baseado na história real de John Wojtowicz que, com as mesmas motivações do personagem da ficção, elaborou e procedeu crime semelhante em uma agência do Brooklyn em 1972. Na ficção é Sonny Wortzik (vivido por Pacino) que arquiteta toda a ação, motivado a conseguir dinheiro fácil para que o seu amante, Leon (Chris Sarandon), faça uma cirurgia de mudança de sexo.

O assalto estava programado para durar apenas poucos minutos mas, fundamentado exclusivamente pelo amor a Leon e tendo um parceiro nada inteligente nessa operação (Sal, vivido pelo extraordinário John Cazale), Sonny entra em colapso e, em questão de horas, envolve uma quantidade significativa de reféns, provoca uma gigantesca mobilização policial, e chama a atenção da imprensa, que transforma o drama dos dois assaltantes em um grande show midiático. Histórias assim sempre possuem um clímax de tirar o fôlego e, assistir a “Um Dia de Cão” é, com certeza, uma experiência eletrizante.

"Dog Day Afternoon" (1975) de Sidney Lumet - Warner Bros. [us] | Artists Entertainment Complex

Fogo Contra Fogo (Heat, Estados Unidos, 1995)

Direção: Michael Mann

Na época das filmagens de “Fogo Contra Fogo”, além de astro disputado entre diretores e produtores de Hollywood, Al Pacino já possuía uma carreira consolidada e tardiamente reconhecida. Nos últimos vinte anos (entre “Um Dia de Cão” e “Fogo Contra Fogo”), ele deu vida a personagens icônicos no cinema, papéis inesquecíveis para muitos cinéfilos como Tony Montana em “Scarface” (1983), Ricky Roma em “O Sucesso a Qualquer Preço” (1992) e, mais uma vez, Michael Corleone em “O Poderoso Chefão - Parte III” (1990).

No longa de Michel Mann, Al Pacino interpreta Vincent Hanna, um agente que trabalha no Departamento de Roubos e Homicídios da Polícia de Los Angeles. Completamente apaixonado por seu serviço, o policial percebe que sua vida pessoal está em desequilíbrio, justamente pela excessiva dedicação ao trabalho, o que acaba prejudicando, inclusive, o seu casamento. Em meio ao seu drama particular, Hanna deve investigar um grande assalto ocorrido na cidade, que vitimou três policiais e causou um prejuízo de mais de um milhão de dólares em títulos de crédito aos cofres públicos.

Encabeçando este crime e liderando mais uma série de roubos altamente planejados está Neil McCauley (Robert De Niro), um criminoso de renome que está determinado a nunca mais voltar para a cadeia após passar muitos anos preso. Ao lado do seu braço direito, Chris Shiherlis (Val Kilmer), Neil comandará a sua perigosa gangue com imoral frieza, confrontando diretamente o experiente, determinado e atarefado Vincent Hanna.

Com uma trama obsessivamente arrepiante, “Fogo Contra Fogo” se tornou um clássico instantâneo, um épico do gênero policial e um dos melhores filmes do diretor Michael Mann. O filme ainda é famoso por fazer com que duas das maiores estrelas de Hollywood contracenassem pela primeira vez. Al Pacino e Robert De Niro já tinham integrado o elenco de “O Poderoso Chefão - Parte II” (1974) de Coppolla, mas não se encontraram frente às câmeras nenhuma vez na ocasião. O encontro dos dois astros voltou a acontecer em “As Duas Faces da Lei” (2008) de Jon Avnet.

Al Pacino e Robert De Niro em "Heat" (1995) de Michael Mann - Warner Bros. [us] | Regency Enterprises [us]

Não Olhe para Trás (Danny Collins, Estados Unidos, 2015)

Direção: Dan Fogelman

Além de “As Duas Faces da Lei”, os últimos vinte anos de carreira de Al Pacino fora repletos de trabalhos importantes dos quais merecem grande destaque “Donnie Brasco” (1997) de Mike Newell, “O Informante” (1999) de Michael Mann, “Insônia” (2002) de Christopher Nolan, “You Don’t Know Jack” (2010) de Barry Levinson e “Salomé”, (2013) dirigido pelo próprio ator.

Recentemente, Al Pacino estreou seu mais novo trabalho, a comédia dramática “Não Olhe para Trás”, onde interpreta Danny Collins (personagem que dá nome ao filme no título original), um veterano artista pop que, embora não tenha caído no ostracismo, vive há mais de 30 anos sem compor nenhuma música e apenas reprisa e reproduz antigos sucessos em seus shows.

Cansado da rotina de álcool, drogas e mulheres, exageros que a fama lhe proporcionou, Danny encontra um forte motivo para dar novos rumos para sua vida. O músico descobre uma carta que John Lennon escreveu para ele há mais de quarenta anos, mas que nunca tinha chegado em suas mãos. Inspirado pelas palavras do eterno beatle, Collins decide interromper a carreira para tentar estabelecer laços afetivos com o filho, já adulto, a quem nunca conheceu.

“Não Olhe para Trás” estreou no Brasil no último dia 16 e continua em cartaz em algumas salas de cinema do país. Oportunidade excelente para ver como Al Pacino ainda mantém uma boa forma e um ótimo programa para o seu momento de descanso.

Al Pacino no recém lançado "Danny Collins" (2015) de Dan Fogelman - Big Indie Pictures [us] | ShivHans Pictures [us]

É ISSO... BOM FIM DE SEMANA E BOAS SESSÕES!

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Identidade Nacional #2 | O Casamento dos Trapalhões (1988)

(O Casamento dos Trapalhões, Brasil, 1988). Dirigido por José Alvarenga Jr. com roteiro de Paulo Andrade. Elenco: Renato Aragão, Nádia Lippi, José de Abreu, Dedé Santana, Mussum, Zacarias, Terezinha Elisa, Marlene Silva, Susana Mattos, Gugu Liberato, Zezé Macedo, Grupo Dominó, Carlos Wilson, Luciana Vendramini, Patrícia Lucchesi, Tatiana Delamare, Helga Gahyva.

Costumeiramente, os filmes de comédia caem na contradição do primor técnico de sua produção versus o humor que efetivamente cativa o seu público. Afinal, até que ponto o que houve de melhor no cinema em seus vários momentos pôde prejudicar ou contribuir para o principal gênero de divertimento da grande tela. De maneira geral, a comédia pela comédia sempre permitiu que alguns pecados cinematográficos fossem cometidos para preservar ou garantir o chiste que conduz as suas histórias. Observamos, por exemplo, exemplares filmes dos Irmãos Marx ou de Jerry Lewis que constantemente abandonam as muletas de uma narrativa linear para não perderem a força do humorismo.

A história não é muito diferente no Brasil e, à medida em que os anos foram passando, os famosos e inesquecíveis filmes d’Os Trapalhões foram perdendo o fôlego, substituindo o que era inicialmente tosco e engraçado por uma verossimilidade diluída pouco a pouco em cada uma das produções que se seguiam, tudo isso em prol de uma retidão que infelizmente combateu o exagero e a afetação circense da trupe. Porém, são inegáveis a importância cultural e a imensa contribuição que Os Trapalhões ofereceram para fãs e não fãs do Brasil e do mundo. O programa de televisão estreou em 1977 na Rede Globo e, concomitantemente, as aventuras de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias chegaram também às salas de cinema com o filme “Os Trapalhões na Guerra dos Planetas” (1978), primeiro longa-metragem com os quatro humoristas juntos (anteriormente já tinham sido realizados 12 filmes).
 
Ressalvando os debates sobre a perda de originalidade ao longo dos anos, é importante destacar que, no âmbito das produções nacionais, os filmes da turma ainda são um fenômeno que deve ser estudado com mais atenção. Das vinte e cinco maiores bilheterias da história do cinema brasileiro (todas elas acima de quatro milhões de espectadores), treze pertencem aos Trapalhões. Com um público de quase quatro milhões e oitocentas mil pessoas, “O Casamento dos Trapalhões” ocupa a 13ª. posição dessa lista, sendo o sexto longa de maior sucesso d’Os Trapalhões (em termos de bilheteria) e destaque da coluna “Identidade Nacional” deste mês.

"O Casamento dos Trapalhões" (1988) de José Alvarenga Jr. - Cinemateca Brasileira | Banco de Conteúdos Culturais

Livremente inspirado em “Sete Noivas para Sete Irmãos” (1954) de Stanley Donen, clássico musical dos anos dourados de Hollywood, “O Casamento dos Trapalhões” mostra uma série de confusões escalonadas de um grupo de simples caipiras que moram em uma fazenda no interior do Estado de São Paulo ao se aventurarem na cidade grande. As trampolinagens são tão grandes que acabam em namoros, casamentos e mais uma série de balbúrdias intermináveis.

Esses atabalhoados matutos são Dedé, Mussum e Zacarias, irmãos de Didi (Renato Aragão), pobre e simples agricultor que também se revela rude no tratamento aos seus compares. Didi vai a trabalho para uma cidade próxima e lá acaba comprando briga com Expedito (José de Abreu) além de conquistar o coração de Joana (Nádia Lippi), que acaba seguindo com ele para a fazenda. Rendido aos encantos da bela moça ele resolve se casar, apesar de Joana (apaixonada, mas com temperamento forte) não se sentir muito à vontade com a presença dos demais irmãos do marido, que possuem maus hábitos e são bem pouco educados.

Aos poucos, Joana consegue mudar os trejeitos rústicos dos cunhados e se vê animada quando, em certo dia, Didi recebe uma carta da irmã pedindo para que os seus sobrinhos, integrantes do Grupo Dominó, passem uma temporada no rancho. A oportunidade era ótima para todos, já que os rapazes iriam participar de um show em uma festa de rodeio na cidade e os seus tios teriam a oportunidade de se divertirem um pouco. No evento, tios e sobrinhos acabam engatando seus romances e depois de arrumarem mais confusões (desta vez, com todo o bando de Expedito), novamente rumam para a fazenda, mas agora com vilão e sua gangue no encalço e determinados a destruí-los.

Nádia Lippi com Didi, Dedé, Mussum e Zacarias em "O Casamento dos Trapalhões" (1988)
Cinemateca Brasileira | Banco de Conteúdos Culturais

Assim como foi discutido no início deste artigo, reafirmo que “O Casamento dos Trapalhões” está longe de ser o melhor filme do quarteto liderado por Renato Aragão, justamente pelo esmero técnico do diretor José Alvarenga Jr. que priva um pouco o humor espontâneo que o elenco sempre possuiu. Este sequer é um dos meus filmes favoritos do grupo, entretanto foi escolhido para estar na coluna do mês por um motivo sentimental fortíssimo.

Não faço parte da geração de crianças que esperavam ansiosas por cada lançamento da turma nos cinemas. Sou ligeiramente mais novo, e pertenço à geração seguinte, a que acompanhava todos os filmes dos Trapalhões pela televisão, sempre na “Sessão da Tarde” da Rede Globo. Apesar disso, o filme representa o início da minha apaixonada relação com o cinema, sendo o primeiro que me recordo de ter visto na telona. Lançado em 1988 (ano em que, para mim, era impossível ter alguma lembrança cinematográfica forte registrada na mente) o filme, como também já foi mencionado, foi sucesso de público e se manteve em cartaz ao longo de repetidas semanas e relançado por algumas vezes em grandes cinemas do país (que, infelizmente, são pouquíssimos hoje em dia).

Os eventuais êxitos de bilheteria alcançados pelos Trapalhões resultaram em um evento preparado pelo saudoso e recém-inaugurado Cine Brasil de Belo Horizonte que, às vésperas do lançamento de “Os Trapalhões e a Árvore da Juventude” em 1991, organizou uma retrospectiva com alguns dos principais filmes da trupe e, na ocasião, fui levado por meu pai para conferir um deles. Hoje (e sempre!) terei o prazer de dizer que o primeiro filme que assisti no cinema (e um dos principais responsáveis por esse amor incontido e latente pela Sétima Arte) foi “O Casamento dos Trapalhões” que à época (hoje, nem tanto) me encheu os olhos, assim como qualquer criança apaixonada pelas aventuras de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias.

Artistas que continuam encantando e conquistando fãs, Os Trapalhões sempre serão parte importante da TV e do Cinema Nacional e, sem dúvida nenhuma, ainda terão muito destaque nas colunas do Rotina Cinemeira.

Um abraço “Da Poltrona”, e até a próxima!


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Três Assim #1 | Documentários que levantaram Plateias e Arquibancadas

Criado a pouco mais de dois meses, o Rotina Cinemeira vem, ao longo de suas publicações, discutindo o cinema em suas generalidades. Através deste espaço, eternos clássicos vêm sendo redescobertos e explorados; grandes lendas do cinema mundial recebem justas homenagens por suas singulares carreiras; e mostras e festivais (a princípio, só em Belo Horizonte) vão sendo divulgadas para que o público e os leitores tenham um contato e uma relação mais íntima e rotineira com uma das formas de expressão artística mais belas que existem.

Ao longo das postagens, filmes que fazem parte das colunas “Sempre um Clássico” e “Identidade Nacional” são automaticamente recomendados, bem como em todas as colunas da sessão “Memórias”, onde dez filmes da personalidade homenageada sempre são indicados. Entretanto, ainda faltava a este blog um espaço que efetivamente indicasse filmes para aqueles que o acompanham com frequência.

Inaugurada hoje, a coluna “Três Assim” tem a proposta de indicar, todas as sextas-feiras, três filmes para o seu fim de semana. O critério para apreciação é todo seu: assista um por dia, todos de uma vez, apenas um ou dois deles ou, simplesmente, anote essas dicas para poder aproveitá-las num futuro próximo. Os filmes recomendados sempre terão alguma relação (de um mesmo ator/diretor; de um mesmo país; de um mesmo gênero/escola cinematográfica) ou irão abarcar uma temática em comum. Lembro aqui que sugestões para os próximos temas ou agrupamento de filmes serão aceitas com entusiasmo e retransmitidas com carinho!

Geógrafo (pelo menos no papel) e único redator do RotinaCinemeira até agora, confesso que possuo gostos peculiares que fogem um pouco do meu enfado profissional. Além do cinema (grande paixão e motivo primordial para a criação deste espaço), o vício por esportes também é grande, e esse vício é tão gigantesco que no meu período de graduação cogitei escrever um livro com alguns colegas que a princípio seria grotescamente intitulado “A Geografia do Futebol” (ainda espero ter cabeça saudável, paixão futebolística, espírito geográfico e criatividade mais aflorada para escrevê-lo futuramente).

Movido por essas duas grandes paixões, o cinema e o futebol, inauguro enfim esta coluna indicando três documentários que levantaram plateias e arquibancadas por onde foram exibidos. Dois deles destaques absolutos em recentes mostras e festivais, inclusive recebendo importantes prêmios; e um outro que reflete uma outra paixão prolongada, sublimada e adjacente ao futebol: o meu Sport Club Corinthians Paulista!

Observação: a reta final dos Campeonatos Estaduais e o iminente início do Campeonato Brasileiro já no começo do mês de maio também motivaram a escolha do tema que inaugura esta coluna.

Agora, sem mais delongas, confira a lista para este fim de semana:

23 Anos em 7 Segundos (23 Anos em 7 Segundos: O Fim do Jejum Corintiano, Brasil, 2009)

Direção: Di Moretti e Júlio Xavier

Uma grande festa! O grito sufocado de uma “nação” ecoa depois de um sofrimento que parecia interminável. Após o jejum de vinte e três anos pelos quais passou sem conquistar nenhum título importante, o Corinthians venceu o Campeonato Paulista de 1977 derrotando a Ponte Preta na final. A saga histórica da quebra desse tabu é contada através do depoimento de vinte três personalidades (nem tão) ilustres, incluindo jogadores da época e devotos torcedores do clube alvinegro.

Momentos marcantes como o último título do clube em 1954, o fim da freguesia para o Santos em 1968 e a invasão corintiana ao Maracanã na semifinal do Campeonato Brasileiro de 1976 contra o Fluminense dão um toque ainda mais dramático ao filme, que se encerra com os eletrizantes sete segundos do lance do gol do título. A rede do Pacaembu estufada por Basílio é embalada por uma exorcizada narração do saudoso Osmar Santos. Uma história emocionante!

"23 Anos em 7 Segundos: O Fim do Jejum Corintiano" (2009) de Di Moretti e Júlio Xavier - Canal Azul [br]

Bahêa Minha Vida: O Filme (Bahêa Minha Vida: O Filme, Brasil, 2011)

Direção: Marcio Cavalcante

Mais do que um clube de futebol, o Esporte Clube Bahia é um patrimônio cultural do país e tem, representados por alguns (ou todos) torcedores, histórias pessoais de vida que se misturam e complementam a virtuosa trajetória do tricolor baiano desde a sua fundação, em 1931. Glorioso Campeão Brasileiro em 1959 e 1988, o time vem sofrendo nas últimas décadas com constantes rebaixamentos em amargas campanhas nas competições nacionais. Porém, a má fase nunca impediu que sua torcida deixasse de frequentar os estádios chegando, inclusive, a bater recordes e recordes de público entre todas as divisões no ano de 2007, quando estava na Série C.

Loucura e paixão sincera! “Bahêa Minha Vida” é o retrato honesto de uma fervorosa torcida que ama o Bahia e se sente componente vital de um clube que não é abandonado nem em seus piores momentos. Um filme feito com coração e capaz de emocionar qualquer torcedor, seja ele tricolor ou não.

"Bahêa Minha Vida: O Filme" (2011) de Marcio Cavalcante - Movimento Filmes [br]

O Dia do Galo (O Dia do Galo, Brasil, 2014)

Direção: Cris Azzi e Luiz Felipe Fernandes

Com sensibilidade e emoção contagiante, o documentário de Cris Azzi e Luiz Felipe Fernandes narra a épica conquista da Copa Libertadores da América pelo Atlético Mineiro. O esconjuro de quarenta e dois anos sem um título de expressão é encerrado em um dia mágico movido por paixão, fé e pelo o famoso “eu acredito! ” entoado pelos torcedores atleticanos  pelas arquibancadas dos estádios de um continente (agora) preto e branco.

Integrante da programação da última edição do CINEfoot em Belo Horizonte, “O Dia do Galo” venceu recentemente o prêmio de Melhor Longa-Metragem pelo Júri Popular na 18ª. Mostra de Cinema de Tiradentes e será um dos prováveis destaques da 20ª. Edição do Festival Internacional de Documentários “É Tudo Verdade” que chegará ao Circuito Cultural Banco do Brasil (CCBB) da capital mineira ainda no final deste mês. Mais uma grande chance para conferir este grande filme!

"O Dia do Galo" (2014) de Cris Azzi e Luiz Felipe Fernandes - Alicate [br] | Nitro Imagens [br]

É ISSO... BOM FIM DE SEMANA E BOAS SESSÕES!

terça-feira, 14 de abril de 2015

“Com os Punhos Cerrados” de Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti é destaque do Projeto “Cinema em Transe” nesta terça no Sesc Palladium | Rotina em Belo Horizonte

Dando continuidade ao prélio cultural de expandir o original, vigoroso e inventivo Cinema Nacional, o Projeto “Cinema em Transe” exibe hoje, às 20:00, na Sala Professor José Tavares de Barros do Sesc Palladium, o longa “Com os Punhos Cerrados” de Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti. Impulsionado pelo alvoroço social de amplidão contestadora que toma conta do Brasil desde 2013, o filme produzido pela vivaz Alumbramento Filmes ganha contornos especiais ao retratar de maneira eficaz a crescente dissonância política observada no país.

O grito de liberdade que deflagra uma crescente insatisfação com o Estado faz com que os amigos Eugenio, Joaquim e João planejem, através de uma rádio pirata, uma revolução anarquista que pregue a arte e o protesto contra o modelo de sociedade atual. A irrupção das ondas radiofônicas permite que frequências das emissoras mais tradicionais de Fortaleza sejam inundadas por músicas, poesias e citações que provocam e atacam integralmente as classes mais abastadas.

O enorme desejo de afirmação perante o mundo faz com que esse grupo de vozes eloquentes seja, em uma determinada noite, visto camuflado pelas ruas da cidade praticando ações que afrontam de maneira direta as peculiares bases de um sistema burguês capitalista causando desconforto aos poderosos. Na tentativa paranoica de capturar os jovens vemos um conservador e influente empresário que está disposto a fazer qualquer coisa para acabar de maneira definitiva com a amotinada rádio. E, em meio ao clima de tensão e risco iminente, surge Salomé, uma bela e misteriosa ouvinte da rádio que pretende mudar o destino de todos ao se unir a Eugenio, Joaquim e João nessa revolução.

“Com os Punhos Cerrados” já possui carreira expressiva no circuito nacional e internacional sendo o grande vencedor nas categorias de Melhor Filme dos festivais Cine//B do Chile e TRANSCINEMA Festival Internacional de No-ficción do Peru. Recentemente o filme também foi laureado como o melhor longa em competição no Festival de Cinema Luso Brasileiro de Santa Maria da Feira, em Portugal, e conquistou o Prêmio de Júri Popular do CINE UNDER Recife, na capital pernambucana.

"Com os Punhos Cerrados" (2014) de Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti - Alumbramento Filmes [br]

Integrante do elenco, o ator e poeta Uirá dos Reis estará presente na sala ao final da projeção para participar de uma leitura de poemas e para debater sobre o filme. Em março do ano passado Uirá, que também é diretor de cinema, esteve presente em uma das exibições do Projeto “Cinema em Transe”. Ele veio à Belo Horizonte para comentar o deleitável “Doce Amianto” (2013) que dirigiu em parceria com o amigo Guto Parente.

Criado em janeiro de 2013 com o intuito de promover o Cinema Nacional, o Projeto “Cinema em Transe” se transformou em um importante veículo para a disseminação de produções lançadas recentemente e que obtiveram destaque significativo em festivais de cinema pelo Brasil e pelo mundo. Ao longo desses últimos dois anos, as ações do projeto contribuíram muito para a divulgação e difusão do cinema produzido no país, explorando vários temas e possibilitando um contato maior do público com importantes obras da nossa cinematografia, por vezes raras e de difícil acesso.

Ressalvando o enorme valor cultural do projeto, vale lembrar que as exibições no Sesc Palladium são quinzenais e em sessão única. Dessa forma, se a divulgação desses filmes não for feita permanentemente, muitos deles continuarão enfrentando grandes dificuldades para se lançarem no circuito comercial. Alguns desses excelentes filmes, por exemplo, são inéditos em Belo Horizonte e, lamentavelmente, terão pouco ou nenhum destaque nas salas de cinema da cidade. Confira, então, as produções já exibidas pelo projeto em 2015 com o link para os respectivos artigos e ajudem a divulgá-los:


Viva o Cineclubismo e viva o Cinema Nacional!


Observação: a entrada para a sessão de “Com os Punhos Cerrados” esta noite é gratuita, mas é necessário retirar os ingressos na bilheteria do Sesc Palladium duas horas antes da sessão. O espaço está sujeito a lotação.

A Sala Professor José Tavares de Barros está localizada no Sesc Palladium, na Avenida Augusto de Lima 420, centro de Belo Horizonte.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Cine Humberto Mauro exibe a partir desta sexta a Mostra “Sem Destino - Filmes na Estrada” | Rotina em Belo Horizonte

Com uma seleção especial de clássicos deslumbrantes dos popularmente conhecidos “road movies”, entra em cartaz hoje no Cine Humberto Mauro, em Belo Horizonte, a Mostra “Sem Destino - Filmes na Estrada”. Ao todo serão exibidos, até o dia 30 de abril, 21 filmes que têm como mote principal histórias que se desenvolvem a partir do deslocamento de uma personagem de um ponto ao outro de uma estrada, sempre valorizando as paisagens e os eventos que acontecem durante o percurso.

Viagens são capazes de transformar uma pessoa, normalmente alterando as perspectivas de suas vidas cotidianas para sempre. Arraigadas em contos orais ou escritos literários como a épica “Odisseia de Ulisses”, os roteiros dos “road movies” constantemente nos apresentam o crescimento psicológico e moral de suas personagens, evidenciando um amadurecimento ao longo das tramas.

Trabalhos cinematográficos que, literalmente, “pegam a estrada” são humanisticamente muito fortes, pois tratam universalidades e singularidades em um único espaço. Entretanto, o Road Movie não é propriamente um gênero, pois não se sustenta em um discurso teórico ou filosófico que venha a configurá-lo como tal. Um gênero não pode ser entendido apenas como um agrupamento de uma única dimensão material fílmica e, no caso dos “road movies”, é a estrada, e somente a estrada o ponto comum entre todas as produções.

É louvável, porém, agrupar alguns desses melhores trabalhos em uma única mostra, pois é uma fórmula que funciona e que atrai um grande público desde o início dos anos 60 até os dias atuais. Justamente por perpassar décadas e englobar vários gêneros de fato, os filmes de estrada merecem sim um destaque especial e, com base na programação divulgada pela gerência da casa, o Rotina Cinemeira selecionou e agora indica cinco filmes (cada um de uma década) que você não pode perder este mês, confira:

Easy Rider - Sem Destino (Easy Rider, Estados Unidos, 1969)

Direção: Dennis Hopper

Após negociarem um contrabando de drogas levados do México para Los Angeles, Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Dennis Hopper) partem com o dinheiro da venda a bordo de suas motocicletas em uma viagem pelo Sul dos Estados Unidos, da Califórnia até a Louisiana, a fim de chegarem para as festividades do Mardi Gras de Nova Orleans, um dos carnavais mais afamados do mundo.

Em uma aventura plenamente libertária e movida a centenas de baseados, os amigos se surpreendem ao conhecer a “América Real” através de uma série de situações vivenciadas ao longo da estrada. Além das belíssimas e áridas paisagens naturais, a experiência dos motociclistas explora o panorama de um país agitado culturalmente (principalmente pela ascensão e ligeira queda do movimento hippie), sintetizando através da “imaginação nacional” os medos e esperanças de toda uma sociedade.

Clássico da contracultura e reflexo das aspirações insurgentes de toda uma geração, “Easy Rider - Sem Destino” é o retrato fiel da juventude rebelde dos Estados Unidos dos anos 60. Dirigido por Hopper, produzido por Peter Fonda e roteirizado pelos dois (juntamente com Terry Southern), o filme é um dos pioneiros do criativo e visceral movimento que revolucionou o cinema estadunidense, conhecido como “A Nova Hollywood”.

"Easy Rider" (1969) de Dennis Hopper - Columbia Pictures Corporation [us] | Pando Company Inc. | Raybert Productions

Encurralado (Duel, Estados Unidos, 1971)

Direção: Steven Spielberg

Cidadão tranquilo e trabalhador honesto, David Mann (Dennis Weaver) é um viajante habitual que, a bordo de sua Plymouth Valiant 1971, cruza sozinho uma estrada secundária do deserto californiano para cumprir a sua rotina de negócios. Seu trajeto vai sendo percorrido sem maiores problemas, até o momento em que ele ultrapassa um lento caminhão-tanque. Irritado, porém sem motivos aparentes, o motorista do caminhão inicia de forma ameaçadora um arriscado “jogo de gato e rato” e começa a perseguir David que, a essa altura, já se encontra pavorosamente assustado, confuso e certo de que será morto.

No desenrolar da trama, a tensão dos acontecimentos cresce de forma gradativa, sustentada pelo maior trunfo do filme: a vã tentativa de se descobrir o motivo de tanto ódio e malevolência. O suspense que sempre mantém a identidade do motorista do caminhão oculta nos faz enxergar o gigantesco veículo como uma feroz e violenta máquina assassina que, praticamente, adquiri vida própria nessa incansável perseguição.

Produto de uma criatividade imensurável de um notório talento, “Encurralado” é constantemente classificado de maneira errônea como o primeiro longa de Steven Spielberg (ele já havia realizado em 1964 a ficção científica “Firelight”, com apenas 17 anos), porém é o trabalho que alavanca a carreira do diretor junto com o bem sucedido curta-metragem “Amblin’” (1968). Antes de se dedicar aos efeitos especiais e às superproduções deslumbrantes e fantasiosas (sua marca registrada), Spielberg trabalhava com condições limitadas, e é nesse minimalismo que podemos observar o quão genial ele ainda pode ser.

"Duel" (1971) de Steven Spielberg - Universal Television [us]

Paris, Texas (Paris, Texas, Alemanha Ocidental | França | Reino Unido, 1984)

Direção: Wim Wenders

Depois de quatro anos desaparecido, Travis Henderson (Harry Dean Stanton) é encontrado exausto e desmemoriado em um deserto do Texas, quase na fronteira dos Estados Unidos com o México. Acolhido em Los Angeles pelo irmão Walt Henderson (Dean Stockwell), este homem vai, gradativamente, recuperando a sua memória e recordando fatos de sua vida. Walt é casado com Anne (Aurore Clément) e juntos são responsáveis por Hunter (Hunter Carson), filho de Travis que, aos poucos, volta a se afeiçoar ao pai.

A sintonia entre pai e filho não se dá de maneira imediata, transparecendo de forma bem clara na trama uma das temáticas favoritas do diretor alemão Wim Wenders: a apatia e a crescente insociabilidade do ser humano. Hunter tem apenas sete anos e, mesmo com pouca idade passou por fortes crises emocionais enfrentando a separação de seus pais e, posteriormente, o abandono por parte de sua mãe, Jane (Nastassja Kinski). Reaproximar de Travis significa, para o garoto, reacender o desejo de encontrar a mãe e reconstruir uma família que acabou se perdendo no tempo.

“Paris, Texas” trata de crise comportamental e alienação social, não só nos Estados Unidos como também em todo o mundo. Aqui, cenários icônicos e símbolos visuais de um país são contrastados: a vastidão das (vazias?) paisagens texanas e suas estradas intermináveis se opõe a uma caótica e ultra moderna Los Angeles. Mas isso tudo não importa, afinal viver sozinho é uma tarefa difícil; e em família, muito mais! Procurar a identidade através de um vazio espiritual cada vez maior é um carma lastimável para a humanidade.

"Paris, Texas" (1984) de Wim Wenders - Road Movies Filmproduktion [de] | Argos Films [fr] | Wim Wenders Stiftung [de]

Priscilla, a Rainha do Deserto (The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert, Austrália | Reino Unido, 1994)

Direção: Stephan Elliott

Com ótimas atuações, humor inteligente e sensibilidade descomunal, “Priscilla, a Rainha do Deserto” acompanha as aventuras de duas drag queens e uma transexual que levam o ousado empreendimento de cabaré itinerante para um resort na remota e longínqua Alice Springs, atravessando o tórrido e despovoado deserto australiano. A viagem, a princípio, parece ser uma grande roubada, mas cada uma das personagens têm um motivo pessoal para deixar a segurança e a tranquilidade que possuem em Sydney.

A simpatia transparecida no rosto de cada uma consegue disfarçar o drama que carregam. Bernadette Bassenger/Ralph (Terence Stamp) está entristecida pela morte recente do marido; Mitzi Del Bra/Anyhony (Hugo Weaving) se dedica à venda de uma linha de cosméticos para mulheres que existem dentro de cada homem, a Wo-Man; e Felicia Jollygoodfellow/Adam (Guy Pearce) é uma artista exibida, mimada e desbocada que faz de tudo para se relançar como uma grande estrela. O “trailer econômico modelo Barbie” também se configura como uma personagem, afinal batizado como “Priscilla, a Rainha do deserto”, é ele que dá nome ao filme. Durante todo o caminho, situações absurdamente humanas, como o preconceito e a solidariedade, serão vivenciadas.

Além disso, um segredo guardado por Mitzi e o aparecimento de Bob (Bill Hunter), um mecânico que auxilia nos reparos do problemático motor de Priscilla, darão um contorno ameno e substancial a uma trama que consegue levantar a bandeira de um movimento sem soar inconveniente e, muito menos, panfletário.

"The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert" (1994) de Stephan Elliott
PolyGram Filmed Entertainment [gb] | Latent Image Productions Pty. Ltd. [au] | Specific Films

E sua Mãe Também (Y tu Mamá También, México, 2001)

Direção: Alfonso Cuarón

A prender sobre os mistérios da vida através da amizade, do sexo e do contato com o próximo. Foi com este propósito que os jovens Tenoch (Diego Luna) e Julio (Gael García Bernal) embarcaram em uma viagem ao litoral mexicano em busca de autoconhecimento. Luisa (Maribel Verdú), uma mulher dez anos mais velha que os rapazes e casada com um primo de Tenoch, é convidada pelos dois amigos para também seguir nesta jornada. O convite é feito quando os três se conhecem em uma festa familiar e, a princípio, Luisa recusa, mas um acontecimento crucial em sua vida a encoraja de enfrentar a estrada.

A partir deste momento, o rompimento da tênue linha entre o amadurecimento e o auge dos dilemas adolescentes se faz iminente e a viagem se revela audaciosa e inconsequente. Controlados de forma excessiva pelos seus hormônios, os instintos naturais e carnais de Tenoch e Julio entram em erupção e Luisa se vê em meio a esta efervescência. O choque entre as ações e a perda da inocência trazem à tona a hipocrisia do ser humano, quando as personagens são confrontadas com uma “situação socialmente inaceitável”. O estabelecimento de um paralelo com a sociedade mexicana e a presença de uma narração onisciente contribuem para a construção de uma atmosfera ainda mais amarga da história.

Sucesso de público e crítica, o desconcertante “E sua Mãe Também” foi o principal responsável por valorizar o nome de Alfanso Cuarón, estabelecendo-o como um dos diretores mais importantes da contemporaneidade. Com o filme, o mercado estadunidense se rendeu aos talentos do realizador mexicano, embora Cuarón já tivesse alcançado um relativo sucesso em Hollywood com os anteriores “A Princesinha” (1995) e “Grandes Esperanças” (1998).

"Y tu Mamá También" (2001) de Alfonso Cuarón
Anhelo Producciones [mx] | Besame Mucho Pictures [us] | Producciones Anhelo [mx]

Os demais filmes você pode encontrar na programação completa da Mostra que está disponível no site da Fundação Clóvis Salgado (fcs.mg.gov.br) ou que pode ser acessada diretamente pelo link "Sem Destino - Filmes na Estrada".

É importante lembrar que a entrada é gratuita, mas é necessário retirar os ingressos na bilheteria do cinema meia hora antes de cada sessão.

O Cine Humberto Mauro está localizado no Palácio das Artes, na Avenida Afonso Pena 1537, centro de Belo Horizonte.

terça-feira, 7 de abril de 2015

O legado centenário de Billie Holiday | Filmes que tomaram emprestado o talento da Eterna Lenda do Jazz

Se estivesse viva, Billie Holiday estaria completando 100 anos hoje. Deidade do Jazz e um dos maiores ícones musicais do século XX, a cantora também possuía intrínseca relação com o cinema. Nascida em 7 de abril de 1915, Elionore Harris adotou o nome artístico em homenagem a Billie Dove, estrela do cinema mudo dos Estados Unidos. Sua voz absolutamente marcante e seu talento também como compositora estão presentes em mais de cem títulos contemplando ficções, documentários, videoclipes e séries de televisão.

Aproveitando a data, o Rotina Cinemeira selecionou quatro grandes filmes (totalmente distintos) que, de alguma forma, tomaram emprestado parte da genialidade de uma das artistas mais singulares da história.

Billie Holiday (1915 - 1959) - Divulgação

Um Gato em Paris (Une Vie de Chat, França | Holanda | Suíça | Bélgica, 2010)

Direção: Jean-Loup Felicioli e Alain Gagnol

No cinema, o Jazz e o Noir sempre andaram de mãos dadas em um encaixe perfeito entre trilha sonora e gênero cinematográfico. No caso de “Um Gato em Paris” vemos esses dois elementos muito bem aplicados e amarrados pela personalidade forte e pelo vozeirão de Billie Holiday. A animação francesa conta a história de Dino, um gato que tem como dona uma simpática garotinha, mas que possui uma vida secreta auxiliando um ladrão a cometer furtos pelas noites de uma nebulosa Paris. Embora trate de um desenho animado, o ambiente sombrio, o clima de suspense constante e as ações consumadas na calada da noite combinam bastante com a inebriante canção “I Wished on the Moon”, incluída na trilha sonora original do filme. Dino, assim como Billie, possui prazer noturno e um imenso desejo pela luz do luar.


À Espera de um Milagre (The Green Mile, Estados Unidos, 1999)

Direção: Frank Darabont

A atmosfera misteriosa sentida no famoso corredor da morte de “À Espera de um Milagre” é embalada por músicas ouvidas em um pequeno rádio. Sucessos de grandes personalidades da música popular estadunidense como Eddy Howard, Guy Lombardo e Gene Austin foram apreciados por John Coffey e Paul Edgecombe através das frequências captadas pelo velho aparelho instalado na penitenciária. Entretanto, canções de alguns intérpretes como Billie Holiday e Duke Ellington (que também podem ser notadas ao longo do filme) nunca teriam sido reproduzidas em uma estação rádio de verdade, afinal a história é ambientada na Louisiana de meados dos anos 30. A censura e o preconceito em relação à gênero e etnias eram (e ainda são) muito fortes no Estado, tido como um dos mais machistas e com preconceitos raciais mais arraigados dos Estados Unidos.

Cabe destacar que Billie Holiday sofreu em inúmeros episódios de discriminação, tanto por ser mulher quanto por ser negra, inclusive quando já tinha se consolidado como uma das maiores cantoras de seu país, época em que ela “não nos dava além de seu amor”.
   
Observação: a utilização de músicas gravadas, na sua maioria, no início da década de 50 é um erro totalmente perdoável em “À Espera de um Milagre”.


O Ocaso de uma Estrela (Lady Sings the Blues, Estados Unidos, 1972)

Direção: Sidney J. Furie

Vagamente baseado na autobiografia escrita por Billie Holiday em 1956, “O Ocaso de uma Estrela” acompanha a história de vida e a conturbada carreira da cantora. Com Diana Ross no papel principal, o filme funcionou perfeitamente para alavancá-la rumo ao estrelato (Diana venceu o Globo de Ouro na categoria de Jovem Atriz promissora e recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz), mas pecou ao retratar com uma série de imperfeições (principalmente relacionadas à personalidade de Billie) a breve mas visceral passagem desta lenda por este mundo. Musicalmente o filme possui alguns pontos altos, recheados de gravações originais de Billie Holiday (o filme também foi indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora) e performances sóbrias de Diana Ross emprestando corpo e voz para a composição da personagem.

A Motown lançou, à época, a trilha sonora do filme em um disco duplo com os sucessos de Billie Holiday gravados por Diana Ross. Também com o título de “Lady Sings the Blues”, o álbum chegou a ser o número um na lista dos 200 mais vendidos em relação lançada semanalmente pela Billboard.


Nova Orleans (New Orleans, Estados Unidos, 1947)

Direção: Arthur Lubin

Com um roteiro convencional observado nos típicos romances do período e toques sutis de humor semelhantes às comédias dos Irmão Marx, o drama musical “Nova Orleans” não convence cinematograficamente, porém se torna obrigatório pela rara oportunidade de assistir a Billie Holiday atriz. No único filme na qual é de fato creditada, a cantora interpreta Endie, uma empregada doméstica que canta em um bar de um rico empresário sulista fascinado pela cultura negra, sobretudo o jazz. Acompanhada por Louis Armstrong, Woody Herman e demais membros de uma banda afiada, Billie Holiday faz dos números musicais os pontos altos do filme, com destaque para o clássico “Do You Know what it Means to Miss New Orleans?”.

Tentativa do diretor Arthur Lubin de sintetizar a história de um dos movimentos musicais mais importantes da história, “Nova Orleans” deve ser apreciado com os ouvidos e com a alma de um bom amante do Jazz!


Talento genuíno contido em uma melancolia hipnotizante: que a memória e o legado musical de Billie Holiday sejam preservados por muitos séculos!

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Memórias #7 | Manoel de Oliveira (1908 - 2015)

Manoel de Oliveira morreu como sempre desejava: trabalhando e filmando até o fim! Um dos mais longevos cineastas da história (provavelmente, o mais), o diretor português faleceu hoje, na cidade do Porto, aos 106 anos, sendo 90 deles dedicados à sétima arte.

Um dos realizadores europeus mais conceituados e figura fundamental na universalização da cinematografia lusitana, Manoel de Oliveira era dotado de uma singularidade inigualável, afinal suas obras perpassaram décadas e enfrentaram todas as transformações pelas quais o cinema foi submetido (do cinema mudo as projeções em alta definição).

Ícone máximo da cultura contemporânea de Portugal, Manoel compartilhava com o mundo retratos e valores da cultura de seu país. Com uma assinatura poderosa, o diretor esbanjava vitalidade em filmes valiosos e autênticos, nunca abandonando a beleza e a simplicidade em seu estilo de filmar. Em sua premiada carreira obteve destaque com menções honrosas nos principais festivais do mundo (Berlim, Chicago, Locarno, Mar del Plata, Veneza), além do Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes pelo filme “A Carta” em 1999.

Ao todo foram 62 filmes, muito bem equilibrados entre longas e curtas-metragens, sendo esses últimos muito comuns no início da sua carreira e quase sempre de caráter documental. Seu primeiro longa ficcional, “Aniki Bóbó” (1942), foi lançado em meio aos conflitos da Segunda Guerra Mundial em pleno regime ditatorial de Antonio Salazar. Retratando a infância vivida nas ruas de Porto da época, o filme flerta com o movimento neorrealista italiano que, anos mais tarde, alcançaria destaque e excelência na cena cinematográfica mundial.

O diretor português Manoel de Oliveira.

A partir de “Aniki Bóbó”, a carreira cinematográfica de Manoel de Oliveira foi caminhando junto com as transformações sociais e políticas do seu país, passando pelo Estado Novo e pela redemocratização a partir da Revolução dos Cravos até que, a pouco menos de um ano, o diretor lançou no Festival de Veneza o seu último trabalho. “O Velho do Restelo” (2014) é um curta-metragem ficcional que mostra de maneira virtuosíssima o encontro de ilustres e extemporâneos intelectuais portugueses (Luís de Camões, Camilo Castelo Branco e Teixeira de Pascoaes) com Dom Quixote de La Mancha em um dos jardins de uma moderna Porto. Juntos, eles refletem sobre a vida e discutem sobre o passado de glórias e o futuro de incertezas de Portugal.

Constantemente criticado pela lentidão de suas narrativas, Manoel de Oliveira não se importava muito com a opinião daqueles que tinham olhares mais exigentes e ainda tinha o costume de dizer que aquela ideia de que “cinema é movimento” é ilusória. O cinema é sim movimento, muito mais aquele que observamos dentro de cada quadro do que daqueles resultados de estripulias de câmeras cada vez mais modernas. Para o diretor, quanto mais a tecnologia vai avançando, mais o cinema vai se desumanizando.

Apesar da idade avançada, o diretor ainda mantinha muitos projetos em mente, incluindo o longa “A Igreja do Diabo” baseado em contos de Machado de Assis. Admirador da versátil espontaneidade dos atores brasileiros, Manoel de Oliveira iria contar com Fernanda Montenegro e Lima Duarte para os papéis principais.

Consternado, o Brasil também lamenta a partida de Manoel de Oliveira. Sua presença no mundo se fez e sempre se fará necessária! O tempo incrivelmente lhe faltou...

Descanse em paz... (1908 - 2015)

Dez filmes dirigidos por Manoel de Oliveira que indico (em ordem de predileção):

01 - Um Filme Falado (2003)

02 - Aniki Bóbó (1942)

03 - O Princípio da Incerteza (2002)

04 - Singularidades de uma Rapariga Loura (2009)

05 - Os Canibais (1988)

06 - Porto da Minha Infância (2001)

07 - ‘Non’, ou a Vã Glória de Mandar (1990)

08 - O Estranho Caso de Angélica (2010)

09 - O Gebo e a Sombra (2012)

10 - A Divina Comédia (1991)

"Aniki Bóbó" (1942) de Manoel de Oliveira - Produções António Lopes Ribeiro [pt]


quarta-feira, 1 de abril de 2015

Cine Sesc Palladium exibe a partir desta quarta a Mostra “Expoentes do Neorrealismo Italiano” | Rotina em Belo Horizonte

Tem início hoje, no Sesc Palladium em Belo Horizonte, a Mostra “Expoentes do Neorrealismo Italiano”. Ao todo serão exibidos na Sala Professor José Tavares de Barros, até o dia 12 de abril, seis belíssimos filmes de três dos mais aclamados cineastas do movimento neorrealista italiano: Vittorio De Sica, Roberto Rossellini e Luchino Visconti.

O Neorrealismo surgiu na Itália como um veículo estético-ideológico de resistência logo após o encerramento da Segunda Guerra Mundial e da “libertação” do país do regime fascista. Movido por características comuns em produções do período e por uma forte ideologia difundida entre os realizadores, o movimento introduziu na história do cinema obras que buscavam retratar a realidade de um país devastado pelo conflito.

Dentre as principais características podemos destacar a escalação de não atores para os papéis principais, o uso de iluminação natural e, sobretudo, a filmagem em locações reais como ruas e espaços comuns do povo, locais onde ainda podemos notar os efeitos reais e devastadores de uma guerra em um país que mal iniciou a sua reconstrução. “Roma Cidade, Aberta” (1945) de Roberto Rossellini é considerado por muitos o primeiro grande marco do movimento, e mostrou ao mundo como era possível se fazer cinema mesmo sob as condições mais precárias.

Ao produzirem seus filmes, os diretores do movimento acabaram flertando com a estética documental, justamente pelo absoluto realismo de todas as ações dos elencos dirigidos. Somado a isso, o teor fortemente político das narrativas permitia que os olhos de espectadores de todo o mundo fossem voltados para a sofrida sociedade italiana, explorando os seus valores e seus principais conflitos, trazendo para tela características muito peculiares como os dialetos locais e costumes culturais das várias regiões do país.

Vittorio De Sica, Roberto Rossellini e Luchino Visconti: Expoentes do Neorrealismo Italiano

O movimento cultural neorrealista italiana possuiu, de fato, as suas bases mais fortes enraizadas no movimento cinematográfico. Fortemente influenciados pelos filmes da Escola do Realismo Poético Francês, os diretores que terão obras contempladas nesta mostra podem ser considerados os três pilares principais do movimento na Itália, que ainda conta com nomes como Alberto Lattuada, Alessandro Blasetti, Luigi Zampa, Michelangelo Antonioni e Pietro Germi.

O Rotina Cinemeira faz agora uma breve explanação das características cinematográficas de De Sica, Rossellini e Visconti e apresenta a sinopse dos filmes de cada um destes cineastas que serão contemplados nesta Mostra, todos imperdíveis! Confira:

VITTORIO DE SICA (1901 - 1974)

Com um estilo que privilegia planos sequenciais amplos em grandes locações externas (seguindo as diretrizes básicas do movimento neorrealista), a obra de Vittorio De Sica aborda com grande ênfase a solidão, o sofrimento e a miséria do povo italiano em um realismo documental que pode ser percebido com rara sensibilidade. Além de diretor, De Sica também foi um importante ator do cinema italiano. Seus filmes exibidos serão:

Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette, Itália, 1948)

Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani) é um operário desempregado e de origem humilde que luta para sustentar a família. À procura de um emprego na prefeitura de Roma, Antonio acaba conquistando a vaga de afixador de cartazes. Entretanto, para começar a trabalhar, ele precisava de uma bicicleta, o que faz com que sua esposa (Lianella Carell) penhore as roupas de cama da casa para conseguir o veículo em troca. Para completo desespero do pobre homem, a bicicleta é roubada em seu primeiro dia de trabalho. A partir daí Antonio, junto de seu filho Bruno (Enzo Staiola), parte em uma desenfreada busca pelas ruas da cidade a fim de recuperar a bicicleta.

Umberto D. (Umberto D., Itália, 1952)

O início dos anos 50 ficam marcados pelo renascimento da economia italiana após o país ser devastado pelos conflitos da Segunda Guerra Mundial. Enquanto isso, idosos sofrem com as miseráveis pensões oferecidas pelo governo. Em Roma, Umberto Domenico Ferrari (Carlo Battisti), um funcionário público de idade avançada e já aposentado, é ameaçado de despejo por não conseguir pagar o aluguel de seu quarto. Sem amigos e sem família, Umberto vaga desanimado pelas ruas da cidade sempre ao lado de seu fiel companheiro, o cachorrinho Flike, e em busca de apenas um objetivo: viver com dignidade.

"Umberto D." (1952) de Vittorio de Sica - Rizzoli Film [it] | Produzione Films Vittorio De Sica [it] | Amato Film [it]

ROBERTO ROSSELLINI (1906 - 1977)

Rossellini era um romano costumeiro. Com uma direção sóbria e bem orientada, o diretor retratava a Itália de seu tempo com simplicidade e beleza excepcionais. Crítico voraz do Fascismo Italiano, ficou famoso por “documentar” os obscuros anos do país em sua aterradora “Trilogia da Guerra”. Além de obras fundamentais para o movimento neorrealista, Rossellini filmou importantes cinebiografias como “Francisco, Arauto de Deus” (1950), “Sócrates” (1971), “Santo Agostinho” (1972) e “Descartes” (1974). Serão exididos:

Roma, Cidade Aberta (Roma, Città Aperta, Itália, 1945)

Durante a Segunda Guerra Mundial, entre os anos de 1943 e 1944, Roma encontra-se sob ocupação nazista, porém é declarada “cidade aberta”, evitando que bombardeios a atinjam. Essa situação abre espaço para que os romanos possam transitar livremente pelas ruas sem que sejam mortos e, neste momento, comunistas e católicos deixam as suas diferenças de lado e se unem no combate contra os alemães e as tropas fascistas, que ainda procuram líderes ou pessoas que apoiam o movimento de resistência.

Alemanha, Ano Zero (Germania, Anno Zero, Itália | França | Alemanha, 1948)

Edmund (Edmund Moeschke) é um menino de doze anos que vive na obliterada Berlim devastada pela Segunda Guerra Mundial. Vivendo em um prédio de apartamentos bombardeados, o pobre garoto trabalha e faz de tudo para sustentar o pai doente, sua pequena irmã e o irmão, que perderam todos os documentos. Vagando desorientado e sem rumo pelas ruas, Edmund encontra um antigo professor (Erich Gühne) e espera conseguir algum tipo de ajuda dele, mas as ideias e opiniões deste homem acabam por confundi-lo ainda mais. O filme fecha a “Trilogia da Guerra” de Rossellini, precedido por “Roma, Cidade Aberta” (1945) e “Paisà” (1946).

"Germania, Anno Zero" (1948) de Roberto Rossellini
Tevere Film [it] | SAFDI [de] | Union Générale Cinématographique (UGC) [fr]

LUCHINO VISCONTI (1906 - 1976)

Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes por “O Leopardo” (1963), o milanês Luchino Visconti assumiu como nenhum outro cineasta a contradição do artista que indaga e nunca se dá por satisfeito. Intelectual de sensibilidade refinada, o diretor soube retratar com precisão as várias camadas da sociedade italiana em diversos períodos da história, o que o consagra não só como um dos expoentes do movimento neorrealista, mas também como um dos maiores diretores do cinema italiano. De Visconti, teremos a chance de conferir:

A Terra Treme (La Terra Trema, Itália, 1948)

Na Itália Siciliana, pescadores vivem à mercê de atacadistas gananciosos no comércio de peixe. Revoltado com a exploração de seus superiores, o jovem Ntoni (Antonio Arcidiacono) decide trabalhar por conta própria e tenta convencer os seus colegas a fazerem o mesmo. Porém, com essa decisão, Ntoni vai enfrentar muitos obstáculos pelo caminho ao mesmo tempo em que se depara com uma realidade social ainda mais dura de sua comunidade.

Rocco e seus Irmãos (Rocco e i suoi Fratelli, Itália | França, 1960)

Em busca de melhores condições de vida, a viúva Rosaria Parondi (Katina Paxinou) parte da miserável Sicília para industrial e próspera Milão junto com seus quatro filhos, Rocco, Simone, Ciro e Luca. O quinto filho, Vincenzo (Spiros Focás), já vive na cidade. Aos poucos, cada irmão segue um rumo diferente e vão se acertando em suas novas vidas. Simone (Renato Salvatori) tenta ganhar a vida como pugilista, enquanto Rocco (Alain Delon) se mantém as origens enraizadas e sonha em voltar a sua terra natal. Porém, quando Simone é abandonado pela amante, que se envolve com Rocco, observamos o início da degradação de uma família corrompida pelos costumes e valores duvidosos de uma sociedade hostil.

"Rocco e i suoi Fratelli" (1960) de Luchino Visconti - Titanus [it] | Les Films Marceau [fr]

As exibições serão diárias (exceto dia 06/04) sempre às 19:00 e a programação completa está disponível no site do Sesc Palladium (sescmg.com.br/sescpalladium) ou pode ser acessada diretamente pelo link "Expoentes do Neorrelaismo Italiano".

Lembrando que a entrada é gratuita, mas é necessário retirar os ingressos na bilheteria do Sesc duas horas antes de cada sessão. O espaço está sujeito a lotação. Observação: a casa não funciona às segundas-feiras.

A Sala Professor José Tavares de Barros está localizada no Sesc Palladium, na Avenida Augusto de Lima 420, centro de Belo Horizonte.