terça-feira, 14 de abril de 2015

“Com os Punhos Cerrados” de Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti é destaque do Projeto “Cinema em Transe” nesta terça no Sesc Palladium | Rotina em Belo Horizonte

Dando continuidade ao prélio cultural de expandir o original, vigoroso e inventivo Cinema Nacional, o Projeto “Cinema em Transe” exibe hoje, às 20:00, na Sala Professor José Tavares de Barros do Sesc Palladium, o longa “Com os Punhos Cerrados” de Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti. Impulsionado pelo alvoroço social de amplidão contestadora que toma conta do Brasil desde 2013, o filme produzido pela vivaz Alumbramento Filmes ganha contornos especiais ao retratar de maneira eficaz a crescente dissonância política observada no país.

O grito de liberdade que deflagra uma crescente insatisfação com o Estado faz com que os amigos Eugenio, Joaquim e João planejem, através de uma rádio pirata, uma revolução anarquista que pregue a arte e o protesto contra o modelo de sociedade atual. A irrupção das ondas radiofônicas permite que frequências das emissoras mais tradicionais de Fortaleza sejam inundadas por músicas, poesias e citações que provocam e atacam integralmente as classes mais abastadas.

O enorme desejo de afirmação perante o mundo faz com que esse grupo de vozes eloquentes seja, em uma determinada noite, visto camuflado pelas ruas da cidade praticando ações que afrontam de maneira direta as peculiares bases de um sistema burguês capitalista causando desconforto aos poderosos. Na tentativa paranoica de capturar os jovens vemos um conservador e influente empresário que está disposto a fazer qualquer coisa para acabar de maneira definitiva com a amotinada rádio. E, em meio ao clima de tensão e risco iminente, surge Salomé, uma bela e misteriosa ouvinte da rádio que pretende mudar o destino de todos ao se unir a Eugenio, Joaquim e João nessa revolução.

“Com os Punhos Cerrados” já possui carreira expressiva no circuito nacional e internacional sendo o grande vencedor nas categorias de Melhor Filme dos festivais Cine//B do Chile e TRANSCINEMA Festival Internacional de No-ficción do Peru. Recentemente o filme também foi laureado como o melhor longa em competição no Festival de Cinema Luso Brasileiro de Santa Maria da Feira, em Portugal, e conquistou o Prêmio de Júri Popular do CINE UNDER Recife, na capital pernambucana.

"Com os Punhos Cerrados" (2014) de Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti - Alumbramento Filmes [br]

Integrante do elenco, o ator e poeta Uirá dos Reis estará presente na sala ao final da projeção para participar de uma leitura de poemas e para debater sobre o filme. Em março do ano passado Uirá, que também é diretor de cinema, esteve presente em uma das exibições do Projeto “Cinema em Transe”. Ele veio à Belo Horizonte para comentar o deleitável “Doce Amianto” (2013) que dirigiu em parceria com o amigo Guto Parente.

Criado em janeiro de 2013 com o intuito de promover o Cinema Nacional, o Projeto “Cinema em Transe” se transformou em um importante veículo para a disseminação de produções lançadas recentemente e que obtiveram destaque significativo em festivais de cinema pelo Brasil e pelo mundo. Ao longo desses últimos dois anos, as ações do projeto contribuíram muito para a divulgação e difusão do cinema produzido no país, explorando vários temas e possibilitando um contato maior do público com importantes obras da nossa cinematografia, por vezes raras e de difícil acesso.

Ressalvando o enorme valor cultural do projeto, vale lembrar que as exibições no Sesc Palladium são quinzenais e em sessão única. Dessa forma, se a divulgação desses filmes não for feita permanentemente, muitos deles continuarão enfrentando grandes dificuldades para se lançarem no circuito comercial. Alguns desses excelentes filmes, por exemplo, são inéditos em Belo Horizonte e, lamentavelmente, terão pouco ou nenhum destaque nas salas de cinema da cidade. Confira, então, as produções já exibidas pelo projeto em 2015 com o link para os respectivos artigos e ajudem a divulgá-los:


Viva o Cineclubismo e viva o Cinema Nacional!


Observação: a entrada para a sessão de “Com os Punhos Cerrados” esta noite é gratuita, mas é necessário retirar os ingressos na bilheteria do Sesc Palladium duas horas antes da sessão. O espaço está sujeito a lotação.

A Sala Professor José Tavares de Barros está localizada no Sesc Palladium, na Avenida Augusto de Lima 420, centro de Belo Horizonte.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Cine Humberto Mauro exibe a partir desta sexta a Mostra “Sem Destino - Filmes na Estrada” | Rotina em Belo Horizonte

Com uma seleção especial de clássicos deslumbrantes dos popularmente conhecidos “road movies”, entra em cartaz hoje no Cine Humberto Mauro, em Belo Horizonte, a Mostra “Sem Destino - Filmes na Estrada”. Ao todo serão exibidos, até o dia 30 de abril, 21 filmes que têm como mote principal histórias que se desenvolvem a partir do deslocamento de uma personagem de um ponto ao outro de uma estrada, sempre valorizando as paisagens e os eventos que acontecem durante o percurso.

Viagens são capazes de transformar uma pessoa, normalmente alterando as perspectivas de suas vidas cotidianas para sempre. Arraigadas em contos orais ou escritos literários como a épica “Odisseia de Ulisses”, os roteiros dos “road movies” constantemente nos apresentam o crescimento psicológico e moral de suas personagens, evidenciando um amadurecimento ao longo das tramas.

Trabalhos cinematográficos que, literalmente, “pegam a estrada” são humanisticamente muito fortes, pois tratam universalidades e singularidades em um único espaço. Entretanto, o Road Movie não é propriamente um gênero, pois não se sustenta em um discurso teórico ou filosófico que venha a configurá-lo como tal. Um gênero não pode ser entendido apenas como um agrupamento de uma única dimensão material fílmica e, no caso dos “road movies”, é a estrada, e somente a estrada o ponto comum entre todas as produções.

É louvável, porém, agrupar alguns desses melhores trabalhos em uma única mostra, pois é uma fórmula que funciona e que atrai um grande público desde o início dos anos 60 até os dias atuais. Justamente por perpassar décadas e englobar vários gêneros de fato, os filmes de estrada merecem sim um destaque especial e, com base na programação divulgada pela gerência da casa, o Rotina Cinemeira selecionou e agora indica cinco filmes (cada um de uma década) que você não pode perder este mês, confira:

Easy Rider - Sem Destino (Easy Rider, Estados Unidos, 1969)

Direção: Dennis Hopper

Após negociarem um contrabando de drogas levados do México para Los Angeles, Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Dennis Hopper) partem com o dinheiro da venda a bordo de suas motocicletas em uma viagem pelo Sul dos Estados Unidos, da Califórnia até a Louisiana, a fim de chegarem para as festividades do Mardi Gras de Nova Orleans, um dos carnavais mais afamados do mundo.

Em uma aventura plenamente libertária e movida a centenas de baseados, os amigos se surpreendem ao conhecer a “América Real” através de uma série de situações vivenciadas ao longo da estrada. Além das belíssimas e áridas paisagens naturais, a experiência dos motociclistas explora o panorama de um país agitado culturalmente (principalmente pela ascensão e ligeira queda do movimento hippie), sintetizando através da “imaginação nacional” os medos e esperanças de toda uma sociedade.

Clássico da contracultura e reflexo das aspirações insurgentes de toda uma geração, “Easy Rider - Sem Destino” é o retrato fiel da juventude rebelde dos Estados Unidos dos anos 60. Dirigido por Hopper, produzido por Peter Fonda e roteirizado pelos dois (juntamente com Terry Southern), o filme é um dos pioneiros do criativo e visceral movimento que revolucionou o cinema estadunidense, conhecido como “A Nova Hollywood”.

"Easy Rider" (1969) de Dennis Hopper - Columbia Pictures Corporation [us] | Pando Company Inc. | Raybert Productions

Encurralado (Duel, Estados Unidos, 1971)

Direção: Steven Spielberg

Cidadão tranquilo e trabalhador honesto, David Mann (Dennis Weaver) é um viajante habitual que, a bordo de sua Plymouth Valiant 1971, cruza sozinho uma estrada secundária do deserto californiano para cumprir a sua rotina de negócios. Seu trajeto vai sendo percorrido sem maiores problemas, até o momento em que ele ultrapassa um lento caminhão-tanque. Irritado, porém sem motivos aparentes, o motorista do caminhão inicia de forma ameaçadora um arriscado “jogo de gato e rato” e começa a perseguir David que, a essa altura, já se encontra pavorosamente assustado, confuso e certo de que será morto.

No desenrolar da trama, a tensão dos acontecimentos cresce de forma gradativa, sustentada pelo maior trunfo do filme: a vã tentativa de se descobrir o motivo de tanto ódio e malevolência. O suspense que sempre mantém a identidade do motorista do caminhão oculta nos faz enxergar o gigantesco veículo como uma feroz e violenta máquina assassina que, praticamente, adquiri vida própria nessa incansável perseguição.

Produto de uma criatividade imensurável de um notório talento, “Encurralado” é constantemente classificado de maneira errônea como o primeiro longa de Steven Spielberg (ele já havia realizado em 1964 a ficção científica “Firelight”, com apenas 17 anos), porém é o trabalho que alavanca a carreira do diretor junto com o bem sucedido curta-metragem “Amblin’” (1968). Antes de se dedicar aos efeitos especiais e às superproduções deslumbrantes e fantasiosas (sua marca registrada), Spielberg trabalhava com condições limitadas, e é nesse minimalismo que podemos observar o quão genial ele ainda pode ser.

"Duel" (1971) de Steven Spielberg - Universal Television [us]

Paris, Texas (Paris, Texas, Alemanha Ocidental | França | Reino Unido, 1984)

Direção: Wim Wenders

Depois de quatro anos desaparecido, Travis Henderson (Harry Dean Stanton) é encontrado exausto e desmemoriado em um deserto do Texas, quase na fronteira dos Estados Unidos com o México. Acolhido em Los Angeles pelo irmão Walt Henderson (Dean Stockwell), este homem vai, gradativamente, recuperando a sua memória e recordando fatos de sua vida. Walt é casado com Anne (Aurore Clément) e juntos são responsáveis por Hunter (Hunter Carson), filho de Travis que, aos poucos, volta a se afeiçoar ao pai.

A sintonia entre pai e filho não se dá de maneira imediata, transparecendo de forma bem clara na trama uma das temáticas favoritas do diretor alemão Wim Wenders: a apatia e a crescente insociabilidade do ser humano. Hunter tem apenas sete anos e, mesmo com pouca idade passou por fortes crises emocionais enfrentando a separação de seus pais e, posteriormente, o abandono por parte de sua mãe, Jane (Nastassja Kinski). Reaproximar de Travis significa, para o garoto, reacender o desejo de encontrar a mãe e reconstruir uma família que acabou se perdendo no tempo.

“Paris, Texas” trata de crise comportamental e alienação social, não só nos Estados Unidos como também em todo o mundo. Aqui, cenários icônicos e símbolos visuais de um país são contrastados: a vastidão das (vazias?) paisagens texanas e suas estradas intermináveis se opõe a uma caótica e ultra moderna Los Angeles. Mas isso tudo não importa, afinal viver sozinho é uma tarefa difícil; e em família, muito mais! Procurar a identidade através de um vazio espiritual cada vez maior é um carma lastimável para a humanidade.

"Paris, Texas" (1984) de Wim Wenders - Road Movies Filmproduktion [de] | Argos Films [fr] | Wim Wenders Stiftung [de]

Priscilla, a Rainha do Deserto (The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert, Austrália | Reino Unido, 1994)

Direção: Stephan Elliott

Com ótimas atuações, humor inteligente e sensibilidade descomunal, “Priscilla, a Rainha do Deserto” acompanha as aventuras de duas drag queens e uma transexual que levam o ousado empreendimento de cabaré itinerante para um resort na remota e longínqua Alice Springs, atravessando o tórrido e despovoado deserto australiano. A viagem, a princípio, parece ser uma grande roubada, mas cada uma das personagens têm um motivo pessoal para deixar a segurança e a tranquilidade que possuem em Sydney.

A simpatia transparecida no rosto de cada uma consegue disfarçar o drama que carregam. Bernadette Bassenger/Ralph (Terence Stamp) está entristecida pela morte recente do marido; Mitzi Del Bra/Anyhony (Hugo Weaving) se dedica à venda de uma linha de cosméticos para mulheres que existem dentro de cada homem, a Wo-Man; e Felicia Jollygoodfellow/Adam (Guy Pearce) é uma artista exibida, mimada e desbocada que faz de tudo para se relançar como uma grande estrela. O “trailer econômico modelo Barbie” também se configura como uma personagem, afinal batizado como “Priscilla, a Rainha do deserto”, é ele que dá nome ao filme. Durante todo o caminho, situações absurdamente humanas, como o preconceito e a solidariedade, serão vivenciadas.

Além disso, um segredo guardado por Mitzi e o aparecimento de Bob (Bill Hunter), um mecânico que auxilia nos reparos do problemático motor de Priscilla, darão um contorno ameno e substancial a uma trama que consegue levantar a bandeira de um movimento sem soar inconveniente e, muito menos, panfletário.

"The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert" (1994) de Stephan Elliott
PolyGram Filmed Entertainment [gb] | Latent Image Productions Pty. Ltd. [au] | Specific Films

E sua Mãe Também (Y tu Mamá También, México, 2001)

Direção: Alfonso Cuarón

A prender sobre os mistérios da vida através da amizade, do sexo e do contato com o próximo. Foi com este propósito que os jovens Tenoch (Diego Luna) e Julio (Gael García Bernal) embarcaram em uma viagem ao litoral mexicano em busca de autoconhecimento. Luisa (Maribel Verdú), uma mulher dez anos mais velha que os rapazes e casada com um primo de Tenoch, é convidada pelos dois amigos para também seguir nesta jornada. O convite é feito quando os três se conhecem em uma festa familiar e, a princípio, Luisa recusa, mas um acontecimento crucial em sua vida a encoraja de enfrentar a estrada.

A partir deste momento, o rompimento da tênue linha entre o amadurecimento e o auge dos dilemas adolescentes se faz iminente e a viagem se revela audaciosa e inconsequente. Controlados de forma excessiva pelos seus hormônios, os instintos naturais e carnais de Tenoch e Julio entram em erupção e Luisa se vê em meio a esta efervescência. O choque entre as ações e a perda da inocência trazem à tona a hipocrisia do ser humano, quando as personagens são confrontadas com uma “situação socialmente inaceitável”. O estabelecimento de um paralelo com a sociedade mexicana e a presença de uma narração onisciente contribuem para a construção de uma atmosfera ainda mais amarga da história.

Sucesso de público e crítica, o desconcertante “E sua Mãe Também” foi o principal responsável por valorizar o nome de Alfanso Cuarón, estabelecendo-o como um dos diretores mais importantes da contemporaneidade. Com o filme, o mercado estadunidense se rendeu aos talentos do realizador mexicano, embora Cuarón já tivesse alcançado um relativo sucesso em Hollywood com os anteriores “A Princesinha” (1995) e “Grandes Esperanças” (1998).

"Y tu Mamá También" (2001) de Alfonso Cuarón
Anhelo Producciones [mx] | Besame Mucho Pictures [us] | Producciones Anhelo [mx]

Os demais filmes você pode encontrar na programação completa da Mostra que está disponível no site da Fundação Clóvis Salgado (fcs.mg.gov.br) ou que pode ser acessada diretamente pelo link "Sem Destino - Filmes na Estrada".

É importante lembrar que a entrada é gratuita, mas é necessário retirar os ingressos na bilheteria do cinema meia hora antes de cada sessão.

O Cine Humberto Mauro está localizado no Palácio das Artes, na Avenida Afonso Pena 1537, centro de Belo Horizonte.

terça-feira, 7 de abril de 2015

O legado centenário de Billie Holiday | Filmes que tomaram emprestado o talento da Eterna Lenda do Jazz

Se estivesse viva, Billie Holiday estaria completando 100 anos hoje. Deidade do Jazz e um dos maiores ícones musicais do século XX, a cantora também possuía intrínseca relação com o cinema. Nascida em 7 de abril de 1915, Elionore Harris adotou o nome artístico em homenagem a Billie Dove, estrela do cinema mudo dos Estados Unidos. Sua voz absolutamente marcante e seu talento também como compositora estão presentes em mais de cem títulos contemplando ficções, documentários, videoclipes e séries de televisão.

Aproveitando a data, o Rotina Cinemeira selecionou quatro grandes filmes (totalmente distintos) que, de alguma forma, tomaram emprestado parte da genialidade de uma das artistas mais singulares da história.

Billie Holiday (1915 - 1959) - Divulgação

Um Gato em Paris (Une Vie de Chat, França | Holanda | Suíça | Bélgica, 2010)

Direção: Jean-Loup Felicioli e Alain Gagnol

No cinema, o Jazz e o Noir sempre andaram de mãos dadas em um encaixe perfeito entre trilha sonora e gênero cinematográfico. No caso de “Um Gato em Paris” vemos esses dois elementos muito bem aplicados e amarrados pela personalidade forte e pelo vozeirão de Billie Holiday. A animação francesa conta a história de Dino, um gato que tem como dona uma simpática garotinha, mas que possui uma vida secreta auxiliando um ladrão a cometer furtos pelas noites de uma nebulosa Paris. Embora trate de um desenho animado, o ambiente sombrio, o clima de suspense constante e as ações consumadas na calada da noite combinam bastante com a inebriante canção “I Wished on the Moon”, incluída na trilha sonora original do filme. Dino, assim como Billie, possui prazer noturno e um imenso desejo pela luz do luar.


À Espera de um Milagre (The Green Mile, Estados Unidos, 1999)

Direção: Frank Darabont

A atmosfera misteriosa sentida no famoso corredor da morte de “À Espera de um Milagre” é embalada por músicas ouvidas em um pequeno rádio. Sucessos de grandes personalidades da música popular estadunidense como Eddy Howard, Guy Lombardo e Gene Austin foram apreciados por John Coffey e Paul Edgecombe através das frequências captadas pelo velho aparelho instalado na penitenciária. Entretanto, canções de alguns intérpretes como Billie Holiday e Duke Ellington (que também podem ser notadas ao longo do filme) nunca teriam sido reproduzidas em uma estação rádio de verdade, afinal a história é ambientada na Louisiana de meados dos anos 30. A censura e o preconceito em relação à gênero e etnias eram (e ainda são) muito fortes no Estado, tido como um dos mais machistas e com preconceitos raciais mais arraigados dos Estados Unidos.

Cabe destacar que Billie Holiday sofreu em inúmeros episódios de discriminação, tanto por ser mulher quanto por ser negra, inclusive quando já tinha se consolidado como uma das maiores cantoras de seu país, época em que ela “não nos dava além de seu amor”.
   
Observação: a utilização de músicas gravadas, na sua maioria, no início da década de 50 é um erro totalmente perdoável em “À Espera de um Milagre”.


O Ocaso de uma Estrela (Lady Sings the Blues, Estados Unidos, 1972)

Direção: Sidney J. Furie

Vagamente baseado na autobiografia escrita por Billie Holiday em 1956, “O Ocaso de uma Estrela” acompanha a história de vida e a conturbada carreira da cantora. Com Diana Ross no papel principal, o filme funcionou perfeitamente para alavancá-la rumo ao estrelato (Diana venceu o Globo de Ouro na categoria de Jovem Atriz promissora e recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz), mas pecou ao retratar com uma série de imperfeições (principalmente relacionadas à personalidade de Billie) a breve mas visceral passagem desta lenda por este mundo. Musicalmente o filme possui alguns pontos altos, recheados de gravações originais de Billie Holiday (o filme também foi indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora) e performances sóbrias de Diana Ross emprestando corpo e voz para a composição da personagem.

A Motown lançou, à época, a trilha sonora do filme em um disco duplo com os sucessos de Billie Holiday gravados por Diana Ross. Também com o título de “Lady Sings the Blues”, o álbum chegou a ser o número um na lista dos 200 mais vendidos em relação lançada semanalmente pela Billboard.


Nova Orleans (New Orleans, Estados Unidos, 1947)

Direção: Arthur Lubin

Com um roteiro convencional observado nos típicos romances do período e toques sutis de humor semelhantes às comédias dos Irmão Marx, o drama musical “Nova Orleans” não convence cinematograficamente, porém se torna obrigatório pela rara oportunidade de assistir a Billie Holiday atriz. No único filme na qual é de fato creditada, a cantora interpreta Endie, uma empregada doméstica que canta em um bar de um rico empresário sulista fascinado pela cultura negra, sobretudo o jazz. Acompanhada por Louis Armstrong, Woody Herman e demais membros de uma banda afiada, Billie Holiday faz dos números musicais os pontos altos do filme, com destaque para o clássico “Do You Know what it Means to Miss New Orleans?”.

Tentativa do diretor Arthur Lubin de sintetizar a história de um dos movimentos musicais mais importantes da história, “Nova Orleans” deve ser apreciado com os ouvidos e com a alma de um bom amante do Jazz!


Talento genuíno contido em uma melancolia hipnotizante: que a memória e o legado musical de Billie Holiday sejam preservados por muitos séculos!

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Memórias #7 | Manoel de Oliveira (1908 - 2015)

Manoel de Oliveira morreu como sempre desejava: trabalhando e filmando até o fim! Um dos mais longevos cineastas da história (provavelmente, o mais), o diretor português faleceu hoje, na cidade do Porto, aos 106 anos, sendo 90 deles dedicados à sétima arte.

Um dos realizadores europeus mais conceituados e figura fundamental na universalização da cinematografia lusitana, Manoel de Oliveira era dotado de uma singularidade inigualável, afinal suas obras perpassaram décadas e enfrentaram todas as transformações pelas quais o cinema foi submetido (do cinema mudo as projeções em alta definição).

Ícone máximo da cultura contemporânea de Portugal, Manoel compartilhava com o mundo retratos e valores da cultura de seu país. Com uma assinatura poderosa, o diretor esbanjava vitalidade em filmes valiosos e autênticos, nunca abandonando a beleza e a simplicidade em seu estilo de filmar. Em sua premiada carreira obteve destaque com menções honrosas nos principais festivais do mundo (Berlim, Chicago, Locarno, Mar del Plata, Veneza), além do Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes pelo filme “A Carta” em 1999.

Ao todo foram 62 filmes, muito bem equilibrados entre longas e curtas-metragens, sendo esses últimos muito comuns no início da sua carreira e quase sempre de caráter documental. Seu primeiro longa ficcional, “Aniki Bóbó” (1942), foi lançado em meio aos conflitos da Segunda Guerra Mundial em pleno regime ditatorial de Antonio Salazar. Retratando a infância vivida nas ruas de Porto da época, o filme flerta com o movimento neorrealista italiano que, anos mais tarde, alcançaria destaque e excelência na cena cinematográfica mundial.

O diretor português Manoel de Oliveira.

A partir de “Aniki Bóbó”, a carreira cinematográfica de Manoel de Oliveira foi caminhando junto com as transformações sociais e políticas do seu país, passando pelo Estado Novo e pela redemocratização a partir da Revolução dos Cravos até que, a pouco menos de um ano, o diretor lançou no Festival de Veneza o seu último trabalho. “O Velho do Restelo” (2014) é um curta-metragem ficcional que mostra de maneira virtuosíssima o encontro de ilustres e extemporâneos intelectuais portugueses (Luís de Camões, Camilo Castelo Branco e Teixeira de Pascoaes) com Dom Quixote de La Mancha em um dos jardins de uma moderna Porto. Juntos, eles refletem sobre a vida e discutem sobre o passado de glórias e o futuro de incertezas de Portugal.

Constantemente criticado pela lentidão de suas narrativas, Manoel de Oliveira não se importava muito com a opinião daqueles que tinham olhares mais exigentes e ainda tinha o costume de dizer que aquela ideia de que “cinema é movimento” é ilusória. O cinema é sim movimento, muito mais aquele que observamos dentro de cada quadro do que daqueles resultados de estripulias de câmeras cada vez mais modernas. Para o diretor, quanto mais a tecnologia vai avançando, mais o cinema vai se desumanizando.

Apesar da idade avançada, o diretor ainda mantinha muitos projetos em mente, incluindo o longa “A Igreja do Diabo” baseado em contos de Machado de Assis. Admirador da versátil espontaneidade dos atores brasileiros, Manoel de Oliveira iria contar com Fernanda Montenegro e Lima Duarte para os papéis principais.

Consternado, o Brasil também lamenta a partida de Manoel de Oliveira. Sua presença no mundo se fez e sempre se fará necessária! O tempo incrivelmente lhe faltou...

Descanse em paz... (1908 - 2015)

Dez filmes dirigidos por Manoel de Oliveira que indico (em ordem de predileção):

01 - Um Filme Falado (2003)

02 - Aniki Bóbó (1942)

03 - O Princípio da Incerteza (2002)

04 - Singularidades de uma Rapariga Loura (2009)

05 - Os Canibais (1988)

06 - Porto da Minha Infância (2001)

07 - ‘Non’, ou a Vã Glória de Mandar (1990)

08 - O Estranho Caso de Angélica (2010)

09 - O Gebo e a Sombra (2012)

10 - A Divina Comédia (1991)

"Aniki Bóbó" (1942) de Manoel de Oliveira - Produções António Lopes Ribeiro [pt]


quarta-feira, 1 de abril de 2015

Cine Sesc Palladium exibe a partir desta quarta a Mostra “Expoentes do Neorrealismo Italiano” | Rotina em Belo Horizonte

Tem início hoje, no Sesc Palladium em Belo Horizonte, a Mostra “Expoentes do Neorrealismo Italiano”. Ao todo serão exibidos na Sala Professor José Tavares de Barros, até o dia 12 de abril, seis belíssimos filmes de três dos mais aclamados cineastas do movimento neorrealista italiano: Vittorio De Sica, Roberto Rossellini e Luchino Visconti.

O Neorrealismo surgiu na Itália como um veículo estético-ideológico de resistência logo após o encerramento da Segunda Guerra Mundial e da “libertação” do país do regime fascista. Movido por características comuns em produções do período e por uma forte ideologia difundida entre os realizadores, o movimento introduziu na história do cinema obras que buscavam retratar a realidade de um país devastado pelo conflito.

Dentre as principais características podemos destacar a escalação de não atores para os papéis principais, o uso de iluminação natural e, sobretudo, a filmagem em locações reais como ruas e espaços comuns do povo, locais onde ainda podemos notar os efeitos reais e devastadores de uma guerra em um país que mal iniciou a sua reconstrução. “Roma Cidade, Aberta” (1945) de Roberto Rossellini é considerado por muitos o primeiro grande marco do movimento, e mostrou ao mundo como era possível se fazer cinema mesmo sob as condições mais precárias.

Ao produzirem seus filmes, os diretores do movimento acabaram flertando com a estética documental, justamente pelo absoluto realismo de todas as ações dos elencos dirigidos. Somado a isso, o teor fortemente político das narrativas permitia que os olhos de espectadores de todo o mundo fossem voltados para a sofrida sociedade italiana, explorando os seus valores e seus principais conflitos, trazendo para tela características muito peculiares como os dialetos locais e costumes culturais das várias regiões do país.

Vittorio De Sica, Roberto Rossellini e Luchino Visconti: Expoentes do Neorrealismo Italiano

O movimento cultural neorrealista italiana possuiu, de fato, as suas bases mais fortes enraizadas no movimento cinematográfico. Fortemente influenciados pelos filmes da Escola do Realismo Poético Francês, os diretores que terão obras contempladas nesta mostra podem ser considerados os três pilares principais do movimento na Itália, que ainda conta com nomes como Alberto Lattuada, Alessandro Blasetti, Luigi Zampa, Michelangelo Antonioni e Pietro Germi.

O Rotina Cinemeira faz agora uma breve explanação das características cinematográficas de De Sica, Rossellini e Visconti e apresenta a sinopse dos filmes de cada um destes cineastas que serão contemplados nesta Mostra, todos imperdíveis! Confira:

VITTORIO DE SICA (1901 - 1974)

Com um estilo que privilegia planos sequenciais amplos em grandes locações externas (seguindo as diretrizes básicas do movimento neorrealista), a obra de Vittorio De Sica aborda com grande ênfase a solidão, o sofrimento e a miséria do povo italiano em um realismo documental que pode ser percebido com rara sensibilidade. Além de diretor, De Sica também foi um importante ator do cinema italiano. Seus filmes exibidos serão:

Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette, Itália, 1948)

Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani) é um operário desempregado e de origem humilde que luta para sustentar a família. À procura de um emprego na prefeitura de Roma, Antonio acaba conquistando a vaga de afixador de cartazes. Entretanto, para começar a trabalhar, ele precisava de uma bicicleta, o que faz com que sua esposa (Lianella Carell) penhore as roupas de cama da casa para conseguir o veículo em troca. Para completo desespero do pobre homem, a bicicleta é roubada em seu primeiro dia de trabalho. A partir daí Antonio, junto de seu filho Bruno (Enzo Staiola), parte em uma desenfreada busca pelas ruas da cidade a fim de recuperar a bicicleta.

Umberto D. (Umberto D., Itália, 1952)

O início dos anos 50 ficam marcados pelo renascimento da economia italiana após o país ser devastado pelos conflitos da Segunda Guerra Mundial. Enquanto isso, idosos sofrem com as miseráveis pensões oferecidas pelo governo. Em Roma, Umberto Domenico Ferrari (Carlo Battisti), um funcionário público de idade avançada e já aposentado, é ameaçado de despejo por não conseguir pagar o aluguel de seu quarto. Sem amigos e sem família, Umberto vaga desanimado pelas ruas da cidade sempre ao lado de seu fiel companheiro, o cachorrinho Flike, e em busca de apenas um objetivo: viver com dignidade.

"Umberto D." (1952) de Vittorio de Sica - Rizzoli Film [it] | Produzione Films Vittorio De Sica [it] | Amato Film [it]

ROBERTO ROSSELLINI (1906 - 1977)

Rossellini era um romano costumeiro. Com uma direção sóbria e bem orientada, o diretor retratava a Itália de seu tempo com simplicidade e beleza excepcionais. Crítico voraz do Fascismo Italiano, ficou famoso por “documentar” os obscuros anos do país em sua aterradora “Trilogia da Guerra”. Além de obras fundamentais para o movimento neorrealista, Rossellini filmou importantes cinebiografias como “Francisco, Arauto de Deus” (1950), “Sócrates” (1971), “Santo Agostinho” (1972) e “Descartes” (1974). Serão exididos:

Roma, Cidade Aberta (Roma, Città Aperta, Itália, 1945)

Durante a Segunda Guerra Mundial, entre os anos de 1943 e 1944, Roma encontra-se sob ocupação nazista, porém é declarada “cidade aberta”, evitando que bombardeios a atinjam. Essa situação abre espaço para que os romanos possam transitar livremente pelas ruas sem que sejam mortos e, neste momento, comunistas e católicos deixam as suas diferenças de lado e se unem no combate contra os alemães e as tropas fascistas, que ainda procuram líderes ou pessoas que apoiam o movimento de resistência.

Alemanha, Ano Zero (Germania, Anno Zero, Itália | França | Alemanha, 1948)

Edmund (Edmund Moeschke) é um menino de doze anos que vive na obliterada Berlim devastada pela Segunda Guerra Mundial. Vivendo em um prédio de apartamentos bombardeados, o pobre garoto trabalha e faz de tudo para sustentar o pai doente, sua pequena irmã e o irmão, que perderam todos os documentos. Vagando desorientado e sem rumo pelas ruas, Edmund encontra um antigo professor (Erich Gühne) e espera conseguir algum tipo de ajuda dele, mas as ideias e opiniões deste homem acabam por confundi-lo ainda mais. O filme fecha a “Trilogia da Guerra” de Rossellini, precedido por “Roma, Cidade Aberta” (1945) e “Paisà” (1946).

"Germania, Anno Zero" (1948) de Roberto Rossellini
Tevere Film [it] | SAFDI [de] | Union Générale Cinématographique (UGC) [fr]

LUCHINO VISCONTI (1906 - 1976)

Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes por “O Leopardo” (1963), o milanês Luchino Visconti assumiu como nenhum outro cineasta a contradição do artista que indaga e nunca se dá por satisfeito. Intelectual de sensibilidade refinada, o diretor soube retratar com precisão as várias camadas da sociedade italiana em diversos períodos da história, o que o consagra não só como um dos expoentes do movimento neorrealista, mas também como um dos maiores diretores do cinema italiano. De Visconti, teremos a chance de conferir:

A Terra Treme (La Terra Trema, Itália, 1948)

Na Itália Siciliana, pescadores vivem à mercê de atacadistas gananciosos no comércio de peixe. Revoltado com a exploração de seus superiores, o jovem Ntoni (Antonio Arcidiacono) decide trabalhar por conta própria e tenta convencer os seus colegas a fazerem o mesmo. Porém, com essa decisão, Ntoni vai enfrentar muitos obstáculos pelo caminho ao mesmo tempo em que se depara com uma realidade social ainda mais dura de sua comunidade.

Rocco e seus Irmãos (Rocco e i suoi Fratelli, Itália | França, 1960)

Em busca de melhores condições de vida, a viúva Rosaria Parondi (Katina Paxinou) parte da miserável Sicília para industrial e próspera Milão junto com seus quatro filhos, Rocco, Simone, Ciro e Luca. O quinto filho, Vincenzo (Spiros Focás), já vive na cidade. Aos poucos, cada irmão segue um rumo diferente e vão se acertando em suas novas vidas. Simone (Renato Salvatori) tenta ganhar a vida como pugilista, enquanto Rocco (Alain Delon) se mantém as origens enraizadas e sonha em voltar a sua terra natal. Porém, quando Simone é abandonado pela amante, que se envolve com Rocco, observamos o início da degradação de uma família corrompida pelos costumes e valores duvidosos de uma sociedade hostil.

"Rocco e i suoi Fratelli" (1960) de Luchino Visconti - Titanus [it] | Les Films Marceau [fr]

As exibições serão diárias (exceto dia 06/04) sempre às 19:00 e a programação completa está disponível no site do Sesc Palladium (sescmg.com.br/sescpalladium) ou pode ser acessada diretamente pelo link "Expoentes do Neorrelaismo Italiano".

Lembrando que a entrada é gratuita, mas é necessário retirar os ingressos na bilheteria do Sesc duas horas antes de cada sessão. O espaço está sujeito a lotação. Observação: a casa não funciona às segundas-feiras.

A Sala Professor José Tavares de Barros está localizada no Sesc Palladium, na Avenida Augusto de Lima 420, centro de Belo Horizonte.

terça-feira, 31 de março de 2015

Vistos e Revistos em 2015 #março

O tenso mês de março chegou ao fim! Particularmente (e pessoalmente) foi um mês difícil, mas não me impediu de manter a viciosa rotina de frequentar o cinema ou assistir a bons filmes em casa.

Este mês foram 40 filmes vistos ou revistos, um pouco menos que os 43 de janeiro e os 44 de fevereiro, mas suficientes para ampliar objetivo de manter a média superior a 1 filme/dia. Média que que, por sinal, continua muito boa!

Março teve uma motivação especial, e julgo que ela seja a responsável por não ter feito a média despencar vertiginosamente (como sempre ocorrem nesse mesmo período em anos anteriores): boa parte dos filmes que assisti esse mês fizeram parte da programação da Mostra “Cinema Japonês - ParteI” exibida no Cine Humberto Mauro, aqui em Belo Horizonte. Com cópias belíssimas em película (nos formatos de 16mm e 35mm), a mostra se destacou no cenário cultural da cidade, permitindo um maior contato e aprofundamento com uma das cinematografias mais belas do mundo. O desejo era, de fato, apreciar todas as raridades! (artigo completo sobre esta mostra AQUI)

Para finalizar ressalto, mais uma vez, que indico todos os filmes aos quais assisto! A ladainha continua a mesma: cada um deles, por pior que seja, tem direito a uma indicação, simplesmente pela proposta à experiência da degustação cinematográfica. Uma vez ou outra (no caso, quase sempre) o que agrada aos olhos de um pode não agradar aos olhos de todos os outros.

Observação: os filmes em destaque na lista a seguir possuem perfil e crítica na sessão “Sempre um Clássico”, é só clicar e conferir!

A seguir compartilho todos os 127 filmes já apreciados em 2015:

001 - Abominável Doutor Phibes, O (The Abominable Dr. Phibes, Reino Unido | Estados Unidos, 1971)

002 - Abutre, O (Nightcrawler, Estados Unidos, 2014)

003 - Além da Fronteira (Out in the Dark, Israel | Estados Unidos, 2012)

004 - Alien, o Oitavo Passageiro (Alien, Estados Unidos | Reino Unido, 1979)


006 - Amantes Crucificados, Os (Chikamatsu Monogatari, Japão, 1954)

007 - Anabazys - O Terceiro Testamento de Glauber Rocha (Anabazys, Brasil, 2007)

008 - Aniversário Macabro (The Last House on the Left, Estados Unidos, 1972)

009 - Ao Rufar dos Tambores (Drums Along the Mohawk, Estados Unidos, 1939)

010 - Aplausos (Applaus, Dinamarca, 2009)

011 - Atire a Primeira Pedra (Destry Rides Again, Estados Unidos, 1939)

012 - Batman (Batman, Estados Unidos | Reino Unido, 1989)

013 - Beau Geste (Beau Geste, Estados Unidos, 1939)

014 - Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance), Estados Unidos | Canadá, 2014)

015 - Boxtrolls, Os (The Boxtrolls, Estados Unidos, 2014)

016 - Cake: Uma Razão para Viver (Cake, Estados Unidos, 2014)

017 - Caminhos da Floresta (Into the Woods, Estados Unidos | Reino Unido | Canadá, 2014)

018 - Carícia Fatal (Ratos e Homens) (Of Mice and Men, Estados Unidos, 1939)

019 - Como Treinar o seu Dragão 2 (How to Train your Dragon 2, Estados Unidos, 2014)

020 - Conto da Princesa Kaguya, O (Kaguyahime no Monogatari, Japão, 2013)

021 - Contos da Lua Vaga (Ugetsu Monogatari, Japão, 1953)

022 - Corcunda de Notre Dame, O (The Hunchback of Notre Dame, Estados Unidos, 1939)

023 - Costela de Adão, A (Adam’s Rib, Estados Unidos, 1949)

024 - De Onde se Avistam as Chaminés (Entotsu no Mieru Basho, Japão, 1953)

025 - Departamento Q - Guardiões das Causas Perdidas (Kvinden i Buret, Dinamarca | Alemanha | Suécia, 2013)

026 - Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry, Estados Unidos, 1997)

027 - Deserto Azul (Deserto Azul, Brasil | Chile, 2013)

028 - Dois Dias, uma Noite (Deux Jours, une Nuit, Bélgica | França | Itália, 2014)

029 - Duelo Silencioso (Shizukanaru Kettô, Japão, 1949)

030 - Dúvida (Doubt, Estados Unidos, 2008)

031 - Ela Volta na Quinta (Ela Volta na Quinta, Brasil, 2014)

032 - Em Trânsito (Em Trânsito, Brasil, 2013)

033 - Era uma Vez em Tóquio (Tôkyô Monogatari, Japão, 1953)

034 - Estranho Mundo de Jack, O (The Nightmare Before Christmas, Estados Unidos, 1993)

035 - Exterminador do Futuro, O (The Terminator, Reino Unido | Estados Unidos, 1984)

036 - Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final, O (Terminator 2: Judgment Day, Estados Unidos | França, 1991)

037 - Fargo - Uma Comédia de Erros (Fargo, Estados Unidos | Reino Unido, 1996)

038 - Festa de Família (Festen, Dinamarca | Suécia, 1998)

039 - Filho Único (Hitori Musuko, Japão, 1936)

040 - Fotografia Oculta de Vivian Maier, A (Finding Vivian Maier, Estados Unidos, 2013)

041 - Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo (Foxcatcher, Estados Unidos, 2014)

042 - Frances Ha (Frances Ha, Estados Unidos, 2012)

043 - Frenesi (Frenzy, Reino Unido, 1972)

044 - Garota Exemplar (Gone Girl, Estados Unidos, 2014)

045 - Gigante de Ferro, O (The Iron Giant, Estados Unidos, 1999)

046 - Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador (What’s Eating Gilbert Grape, Estados Unidos, 1993)

047 - Gunga Din (Gunga Din, Estados Unidos, 1939)

048 - Halloween - A Noite do Terror (Halloween, Estados Unidos, 1978)

049 - Heróis Esquecidos (The Roaring Twenties, Estados Unidos, 1939)

050 - Homem das Multidões, O (O Homem das Multidões, Brasil, 2013)

051 - Homem que Amava as Mulheres, O (L’Homme qui Aimait les Femmes, França, 1977)

052 - Ida (Ida, Polônia | Dinamarca | França | Reino Unido, 2013)

053 - Imagens (Images, Reino Unido | Estados Unidos, 1972)


055 - Inquilino, O (Le Locataire, França, 1976)

056 - Intendente Sanshô, O (Sanshô Dayû, Japão, 1954)

057 - Interestelar (Interstellar, Estados Unidos | Reino Unido | Canadá, 2014)

058 - Invenção de Hugo Cabret, A (Hugo, Estados Unidos, 2011)

059 - Irmãos Cara de Pau, Os (The Blues Brothers, Estados Unidos, 1980)

060 - Irmãos Marx no Circo, Os (At the Circus, Estados Unidos, 1939)

061 - Irmãs Diabólicas (Sisters, Estados Unidos, 1973)

062 - Janela Indiscreta (Rear Window, Estados Unidos, 1954)

063 - Jogo da Imitação, O (The Imitation Game, Reino Unido | Estados Unidos, 2014)


065 - Juno (Juno, Estados Unidos, 2007)

066 - Juventude sem Arrependimento (Waga Seishun ni Kuinashi, Japão, 1946)

067 - Ladrão de Casaca (To Catch a Thief, Estados Unidos, 1955)

068 - Leviatã (Leviafan, Rússia, 2014)

069 - Libertador (Libertador, Venezuela | Espanha, 2013)

070 - Lira do Delírio, A (A Lira do Delírio, Brasil, 1978)

071 - Livre (Wild, Estados Unidos, 2014)

072 - Lobo atrás da Porta, O (O Lobo atrás da Porta, Brasil, 2013)

073 - Locke (Locke, Reino Unido | Estados Unidos, 2013)

074 - Lucia de B. (Lucia de B., Holanda | Suécia, 2014)

075 - Lucy (Lucy, França, 2014)

076 - Magia ao Luar (Magic in the Moonlight, Estados Unidos | Reino Unido, 2014)

077 - Mapas para as Estrelas (Maps to the Stars, Canadá | Alemanha | França | Estados Unidos, 2014)

078 - Mocidade de Lincoln, A (Young Mr. Lincoln, Estados Unidos, 1939)

079 - Morro dos Ventos Uivantes, O (Wuthering Heights, Estados Unidos, 1939)

080 - Mulher faz o Homem, A (Mr. Smith Goes to Washington, Estados Unidos, 1939)

081 - Mulheres, As (The Women, Estados Unidos, 1939)

082 - Música de Gion, A (Gion Bayashi, Japão, 1953)

083 - No Tempo das Diligências (Stagecoach, Estados Unidos, 1939)

084 - Nova Saga do Clã Taira, A (Shin Heike Monogatari, Japão, 1955)


086 - Operação Big Hero (Big Hero 6, Estados Unidos, 2014)

087 - Ouvir o Rio (Ouvir o Rio, Brasil, 2013)

088 - Pai e Filha (Banshun, Japão, 1949)

089 - Para Sempre Alice (Still Alice, Estados Unidos | França, 2014)

090 - Paraíso Infernal, O (Only Angels Have Wings, Estados Unidos, 1939)

091 - Paris, Texas (Paris, Texas, Alemanha Ocidental | França | Reino Unido, 1984)

092 - Parque Soviético (Parque Soviético, Brasil, 2013)

093 - Passageiro - Profissão: Repórter, O (Professione: Reporter, Itália | Espanha | França, 1975)

094 - Portal do Inferno (Jigokumon, Japão, 1953)

095 - Profecia, A (The Omen, Estados Unidos | Reino Unido, 1976)

096 - Profundo Desejo dos Deuses, O (Kamigami no Fukaki Yokubô, Japão, 1968)

097 - Pusher (Pusher, Dinamarca, 1996)

098 - Rotina tem seu Encanto, A (Sanma no Aji, Japão, 1962)

099 - Sangue de Artista (Babes in Arms, Estados Unidos, 1939)


101 - Selma: Uma Luta pela Igualdade (Selma, Reino Unido | Estados Unidos, 2014)

102 - Serra (Serra, Brasil, 2013)

103 - Sete Suspeitos, Os (Clue, Estados Unidos, 1985)

104 - Sexo, Drogas e Impostos (Spies & Glistrup, Dinamarca, 2013)

105 - Sniper Americano (American Sniper, Estados Unidos, 2014)

106 - Sob a Pele (Under the Skin, Reino Unido | Estados Unidos | Suíça, 2013)


108 - Sono de Inverno (Kis Uykusu, Turquia | França | Alemanha, 2014)

109 - Space Jam - O Jogo do Século (Space Jam, Estados Unidos, 1996)

110 - Suspiria (Suspiria, Itália, 1977)

111 - Tangerinas (Mandariinid, Estônia | Geórgia, 2013)

112 - Teoria de Tudo, A (The Theory of Everything, Reino Unido, 2014)

113 - Tokyo-Ga (Tokyo-Ga, Estados Unidos | Alemanha Ocidental, 1985)

114 - Tommy (Tommy, Reino Unido, 1975)

115 - Trágica Obsessão (Obsession, Estados Unidos, 1976)

116 - Trash Humpers (Trash Humpers, Estados Unidos | Reino Unido | França, 2009)

117 - Três Mulheres (3 Women, Estados Unidos, 1977)

118 - Triunfo (Triunfo, Brasil, 2014)

119 - Ulime (Ulime, Cabo Verde, 2010)


121 - Vida de Casado (Meshi, Japão, 1951)

122 - Vida de O’Haru, A (Saikaku Ichidai Onna, Japão, 1952)

123 - Virunga (Virunga, Reino Unido | Congo, 2014)

124 - Vitória Amarga (Dark Victory, Estados Unidos, 1939)

125 - Você vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger, Estados Unidos | Espanha, 2010)

126 - Whiplash: Em Busca da Perfeição (Whiplash, Estados Unidos, 2014)

127 - Zombie - O Despertar dos Mortos (Dawn of the Dead, Itália | Estados Unidos, 1978)

*"The Judge" (2014) - Warner Bros. [us] | Big Kid Pictures [us] | Team Downey [us] | Village Roadshow Pictures [us]

Sempre um Clássico #6 | Alma em Pânico (1952)

(Angel Face, Estados Unidos, 1952). Dirigido por Otto Preminger e com roteiro de Frank S. Nugent e Oscar Millard, baseado em história escrita por Chester Erskine. Elenco: Jean Simmons, Robert Mitchum, Barbara O’Neil, Herbert Marshall, Mona Freeman, Leon Ames, Kenneth Tobey, Raymond Greenleaf, Griff Barnett, Robert Gist, Morgan Farley, Jim Backus.

O universo abrupto e cínico do Cinema Noir sempre nos ofereceu histórias inebriantes. Romances condenados à eterna infelicidade são estabelecidos em ambientes inóspitos e, constantemente, observamos neles a moralidade de alguns homens ruir nas garras de desvirtuadas (porém, poderosas) “femme fatales”. “Alma em Pânico” é um exemplar destoante do movimento que, embora não seja colocado entre os maiores clássicos do gênero, é adorado por inúmeros fãs que contribuem ao longo dos anos na ampliação de sua tardia notoriedade.

Complexo pela presença de elementos freudianos na sustentação do roteiro, o longa dirigido por Otto Preminger desenrola uma gama de situações espantosas provocadas por um desequilíbrio mental que, a princípio, é encoberto por uma maligna obsessão da personagem principal. Aqui, o drama psicológico da figura feminina desenvolve todo o perigo manipulador, passional e, por vezes, sexual que um bom filme noir exige.

Dona de um rosto angelical, Diane Tremayne (Jean Simmons) é uma refinada dama da alta sociedade de Los Angeles. A jovem é demasiadamente dedicada ao pai, Charles Tremayne (Herbert Marshall), e juntos vivem na mansão de Catherine Tremayne (Barbara O’Neil), segunda esposa de Charles e madrasta de Diane. Um misterioso acidente provocado por um vazamento de gás acaba envenenando a dona da casa, que tem que ser atendida às pressas. É nesse momento que Frank Jessup (Robert Mitchum), motorista da ambulância que vai à mansão, é envolvido na história.

Jean Simmons em "Angel Face" (1952) de Otto Preminger - RKO Radio Pictures [us]

Durante a prestação de socorro à Senhora Tremayne, Frank conhece Diane que, instantaneamente, se apaixona por ele. Rapidamente, a bela moça seduz o motorista, destruindo intencionalmente o seu relacionamento com a noiva, Mary Wilton (Mona Freeman) e envolvendo-o de maneira profunda na sua vida, fazendo com que ele desenvolva uma certa ambição e gosto pelo luxo. Frente a todas investidas de Diane, Frank logo se torna chofer da família Tremayne, porém não demora muito para que ele comece a suspeitar das atitudes e das intenções da nova namorada.

Juntando as peças de um misterioso quebra-cabeça, Frank começa a enxergar que por trás de toda a doçura transparecida nas atitudes de Diane existe uma mente perigosa. Ao descobrir o ódio velado da enteada pela madrasta, são reveladas ao motorista todas as maquinações da mulher que ele vinha aprendendo a amar. O acidente com o gás foi, na verdade, provocado deliberadamente por Diane que, apesar de falhar, continuava com a intenção de matar Catherine.

Com uma frieza descomunal no olhar, que impede Diane de exprimir qualquer sentimento de culpa, o plano de assassinato é enfim executado porém, como consequência, a vida de seu pai também é suprimida. Vemos aqui, em uma interpretação rasa do Complexo de Electra, uma psicopatia compulsiva de uma pessoa que é capaz de tudo para remover todas as barreiras que a impedem de ser feliz. Suas ações envolviam Frank diretamente aos acontecimentos e, quando a consciência deste finalmente pesa, ele já é incapaz de escapar deste relacionamento movido por um ódio mortal que converge para um encerramento impressionante e maravilhosamente assustador.

“Alma em Pânico” se diferencia das demais produções da cena noir por ser sarcástico e contraditório. Aqui a personagem feminina é central, invertendo a postura da “femme fatale”, que em vez de ser o alvo do interesse masculino é a responsável por enredar o homem em seu ardil. Porém, o que torna o filme um clássico absoluto são, principalmente, as atuações iluminadas de Jean Simmons e Robert Mitchum.

Robert Mitchum e Jean Simmons em "Angel Face" (1952) de Otto Preminger - RKO Radio Pictures [us]

Simmons foi escalada com precisão pois, nunca havendo feito o tipo “menina má”, interpretou com rara singularidade um papel incompatível às suas características enquanto atriz. Já Mitchum, um dos mais expressivos atores de Hollywood, apesar de “encher a tela” em qualquer filme que participa, consegue se mostrar um sujeito apático e dominado pelas artimanhas da personagem de sua colega. Sob a batuta de Otto Preminger, um dos mais sádicos realizadores de Hollywood, o filme foi rodado cercado de polêmicas e confusões nos bastidores. Com toda sua excentricidade, o diretor austríaco soube muito bem como controlar o elenco com habilidade e manipular a mise en scène com sutileza.

Para encerrar a contenda, vale destacar que o ciúme extrapolado sempre rendeu histórias interessantes tanto na vida real quanto na ficção na ficção. Recentemente essa obsessão paranoica pôde ser semelhantemente notada na trama de “Garota Exemplar” (2014). Embora as motivações da personagem Amy do filme de David Fincher fossem diferentes das de Diane de “Alma em Pânico”, observamos que as complexidades das ações vão além do que os nossos olhos podem enxergar. “Nunca seja um espectador passivo...” é o que o dizia a personagem de Mitchum, embora já estivesse completamente manipulado.

Vemos então como o amor é, por vezes, destacado por contornos doentios, deixando cada vez mais evidente que, por mais que tenhamos o controle de nossos impulsos e emoções, nunca saberemos ao certo quem são as pessoas com quem nos envolvemos. Esse sempre será um fato comum (e aterrador) na vida de todos nós.