Queria poder acreditar que a partida de Gene Wilder
pudesse representar uma bênção, pelo menos para aqueles que se foram com ele no
dia de ontem; sortudos por terem tido a oportunidade de fazer uma passagem
tranquila, serena e com um largo sorriso no rosto. Mas esse desejo quase
incontido acabou derrubando lágrimas por aqui ainda no exato momento do anúncio
de sua morte; sobretudo quando o sobrinho, Jordan Walker-Pearlman, afirmou que
o tio “simplesmente não conseguia
aguentar a ideia de sempre haver um sorriso a menos no mundo” ao comentar
que não compartilharia com os fãs e o grande público os sofrimentos que a
doença iria lhe trazer. Diagnosticado com Alzheimer há três anos, Gene faleceu
aos 83 anos em Stamford, Connecticut, deixando um incontável número de fãs
tristemente desamparados.
Gene Wilder era um dos principais nomes e rostos da
comédia nos Estados Unidos. Ao longo de (pelo menos) três décadas, foi figura
efetiva e presente nos mais variados tipos de produção do gênero no país.
Começou a carreira na televisão com uma participação discreta em um dos
episódios da antológica série semanal “Play
of the Week” (1959 - 1961); um programa que encenava peças de todos gêneros
e escalava para seus elencos alguns dos melhores talentos jovens que
despontavam na Broadway, entre eles nomes como George C. Scott, Robert Redford
e William Shatner; além de alavancar grandes atores para o estrelato, dando o a
eles o seu devido reconhecimento (como no caso do gigante Walter Matthau, por
exemplo).
Trabalhando arduamente no teatro e na TV sempre como ator
de suporte, Gene Wilder seguiu o caminho natural de alguns dos grandes artistas
estadunidenses e resolveu se aventurar no cinema. A atuação no telefilme “Death of a Salesman” (1966), de Alex
Segal, está registrada como a sua primeira experiência frente às câmeras; mas
foi no ano seguinte que a carreira como ator deslanchou. Wilder interpretou o
seu primeiro coadjuvante de peso, o medroso e passivo playboy Eugene Grizzard
de “Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas”
(1967), de Arthur Penn; e, como se não bastasse, ainda estrelou ao lado Zero
Mostel a comédia musical “Primavera para
Hitler”, dirigida pelo amigo (e futuro grande parceiro) Mel Brooks.
“Primavera para Hitler” foi rodado em 1967, mas foi somente
em pouco mais de um ano que vieram os devidos (demorados) e merecidos
reconhecimentos. A atuação de Wilder como o produtor teatral Leo Bloom acabou
lhe rendendo, em 1969, a primeira e única indicação ao Oscar na categoria de
Melhor Ator Coadjuvante (muito embora ele tenha, de fato, dividido o
protagonismo com Mostel). Com a nomeação, Gene Wilder virou sinônimo de
diversão e uma das principais caras do cinema popular estadunidense, emendando
em sequência o divertido “Mercenários de
um Reino em Chamas” (1970), de Bud Yorkin, e aquele trabalho que talvez
tenha lhe dado de presente o seu personagem mais icônico: o tenro,
(des)equilibrado e divertidamente moralista Willy Wonka de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (1971), filme marco do cinema
infanto-juvenil dirigido por Mel Stuart e que deu a Wilder a sua primeira
indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator.
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| Gene Wilder (1933 - 2016) dando vida ao seu personagem mais marcante, o Willy Wonka de "Willy Wonka and The Chocolate Factory" (1971) de Mel Stuart - Wolper Pictures Ltd. |
Popular, carismático e, sobretudo, engraçado! Gene Wilder
se credenciou para ser um dos maiores talentos de todos os tempos naquela que
talvez seja a mais árdua de todas as tarefas de um ser humano: a de fazer as
outras pessoas sorrirem. Porém, na construção de sua sólida carreira o ator
encontrou terrenos tranquilos para desenvolver o seu dom e a sua arte, contando
ainda com duas grandes e valiosas parcerias de sucesso. A primeira com o genial
Mel Brooks, produtor e diretor de dois dos maiores sucessos de Wilder na década
de 70: “Banzé no Oeste” (1974) e “O Jovem Frankenstein” (1974) onde,
neste último, foram nomeados juntos ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado em 1975.
Já na década seguinte, vieram as escrachadas (mas
inteligentíssimas) parcerias com o ator e grande amigo Richard Pryor. A partir
do sucesso anterior que tiveram com “O
Expresso de Chicago” (1976), a dupla passou a dividir constantemente as
telas ao longo de todo os anos 80 e início dos anos 90 em trabalhos memoráveis
como “Loucos de Dar Nó” (1980) de
Sidney Poitier; “Cegos, Surdos e Loucos”
(1989) de Arthur Hiller; e “Um sem Juízo,
outro sem Razão” (1991) de Maurice Phillips.
O fato de Gene Wilder também ter trabalhado e trocado
experiências com monstros sagrados do cinema como Robert Aldrich, Stanley Donen
e Woody Allen, permitiram com que ele ainda se arriscasse como diretor. Wilder
dirigiu, roteirizou e protagonizou todos os seus quatro longas: “O Irmão mais Esperto de Sherlock Holmes”
(1975); “O Maior Amante do Mundo”
(1977); “A Dama de Vermelho” (1984);
e “Lua de Mel Assombrada” (1986).
Wilder parou de filmar para o cinema em 1999 (com o
magnífico suspense “The Lady in Question”
de Joyce Chopra), mas seu último grande toque de genialidade e simpatia veio
com uma participação especial em dois episódios do cultuado seriado “Will & Grace” (1998 - 2006) da NBC.
Por sua atuação como Mr. Stein, Gene Wilder recebeu o Primetime Emmy Awards de
Melhor Ator Convidado em uma Série de Comédia em 2003, coroando uma carreira
fenomenal e colocando-o não só como um dos melhores comediantes da história, mas
também como um dos mais admiráveis e competentes atores que encontraram a
imortalidade através de suas carreiras brilhantes.
De “herói da infância” a “mestre do riso”, Wilder
construiu um mundo mágico; um mundo de sonhos que permanecerão florescendo nas
mentes daqueles que continuarão mantendo o seu legado vivo! Alegria acima de
tudo! “Pura Imaginação”! A doçura de Gene
“Willy Wonka” Wilder viverá sempre em nossos corações!
Descanse em paz! (1933 - 2016)
Dez filmes com Gene
Wilder que indico (em ordem de predileção):
01 - Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas (Bonnie and Clyde, Estados Unidos, 1967)
- de Arthur Penn
02 - O Jovem
Frankenstein (Young Frankenstein, Estados
Unidos, 1974) - de Mel Brooks
03 - Banzé no Oeste (Blazing
Saddles, Estados Unidos, 1974) - de Mel Brooks
04 - Tudo o que Você sempre quis Saber sobre Sexo e tinha
Medo de Perguntar (Everything You Always
wanted to Know About Sex * But Were Afraid to Ask, Estados Unidos, 1972) -
de Woody Allen
05 - A Fantástica
Fábrica de Chocolate (Willy Wonka and The
Chocolate Factory, Estados Unidos, 1971) - de Mel Stuart
06 - Primavera para Hitler (The Producers, Estados Unidos, 1967) - de Mel Brooks
07 - Cegos, Surdos e Loucos (See no Evil, Hear no Evil, Estados Unidos, 1989) - de Arthur Hiller
08 - Loucos de Dar Nó (Stir Crazy, Estados Unidos, 1980) - de Sidney Poitier
09 - O Expresso de Chicago (Silver Streak, Estados Unidos, 1976) - de Arthur Hiller
10 - O Irmão mais Esperto de Sherlock Holmes (The Adventure of Sherlock Holmes’ Smarter
Brother, Estados Unidos | Reino Unido, 1975) - de Gene Wilder
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| Gene Wilder em ação com Peter Boyle no clássico "Young Frankenstein" (1974) de Mel Brooks Gruskoff/Venture Films | Crossbow Productions [us] | Jouer Limited |


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